Mestre em Administração Pública pela Harvard Kennedy School of Government, tendo recebido o prêmio de aluna destaque 2014/2015. Atuou nas áreas de comunicação e de planejamento em consultorias de estratégia até iniciar sua carreira no terceiro setor como coordenadora do Ano Internacional do Voluntário no Brasil, projeto que recebeu o destaque das Nações Unidas em 2001. Ajudou a fundar o Instituto Faça Parte em 2002, onde atuou como coordenadora até 2005.

É cofundadora do movimento Todos Pela Educação, onde exerce a função de Presidente-executiva. Desde fevereiro de 2018 preside o Conselho do Instituto Articule. Já fez centenas de palestras sobre Educação no Brasil e no exterior e participou de diversas audiências na Câmara e no Senado.Em 2012, recebeu o Prêmio Jovem Liderança na Educação promovido pelo Grupo Estado e o Prêmio Darcy Ribeiro 2012, concedido pela Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados ao Todos Pela Educação.

Priscila Cruz: Como uma mudança radical e planejada na educação pode transformar a democracia brasileira    

“Os países vencedores, que tem uma economia forte, que tem emprego, que as pessoas têm renda, com menos violência, são países que investem no professor, na educação.”

Há anos, a educação é um dos grandes problemas do Brasil, em especial no que diz respeito ao aprendizado, à evasão escolar e à formação de professores. Se é preocupante um aluno não estar na escola, terminar os estudos sem saber quase nada é ainda pior. Como se envolver com a democracia se de cada 100 alunos que terminam o ensino médio no país, 70 não conseguem interpretar um texto, não sabem diferenciar o que é um fato, um dato, de uma opinião ideológica ou uma Fake News, as falsas notícias?

Educação é, sem dúvida, uma área estratégica para o desenvolvimento de uma democracia. Se todas as crianças e jovens tem o direito constitucional à educação, como garantir que ela aconteça de forma melhor e mais eficiente? Qual é o efeito do ensino para uma sociedade mais democrática?

Quem vai falar sobre esse assunto é uma das pessoas que, atualmente, mais conhece o panorama da educação no Brasil. Graduada em Administração pela Fundação Getúlio Vargas, em Direito pela USP e Mestre em administração pública pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, ela é hoje uma forte e inspiradora liderança na defesa de uma educação base de qualidade para o Brasil. O nosso Elo da Democracia deste mês é a Presidente do Todos Pela Educação, Priscila Cruz.

Allan Menengoti – “Priscila, obrigado por me receber aqui na sede do Todos Pela Educação pra gente falar de um assunto bastante importante para nossa democracia, que é a educação do nosso país.”

Priscila Cruz “Eu que agradeço a oportunidade para poder fazer essa relação tão importante entre educação e democracia. Afinal de contas a educação tem relação positiva com várias áreas, mas a democracia é a base de todas as outras. Então a gente precisa ter uma educação de qualidade, igualdade de oportunidades para que a gente tenha condições para que toda a população brasileira tenha o seu potencial colocado em prática. Todo mundo, toda criança, todo jovem, todo adulto, todo mundo tem uma série de potencialidades, mas que deixa de colocar em prática, deixa de colocar isso a favor do Brasil, a favor da sua vida, a favor da sua família, da sua comunidade, porque a gente falha como o país há décadas, há centenas de anos.”

Allan Menengoti – “Qual democracia foi construída no nosso país nos últimos 30 anos com a educação que a gente tem? Foi dado o devido valor para a educação no nosso país?”

Priscila Cruz –Não foi. Desde a formação do nosso país, a gente sempre priorizou muito mais o ensino superior. Ele sempre foi uma estratégia do governo central, do governo nacional, para dar educação para as elites, até porque muitos deles, durante a educação básica, também acabavam estudando fora do país ou estudavam em escolas públicas, mas que eram muito poucas, só para essa elite. Aqui eu quero aproveitar e comentar um assunto que muita gente fala: poxa, mas na minha época, na época do meu pai, na época da minha avó a educação pública era de boa qualidade. Ela não era de boa qualidade. Ela não era de boa de qualidade, porque ela era para poucos. Quando eu estava no ensino médio, 40% dos jovens da minha idade estava no ensino médio. Quando os meus pais estavam no ensino médio, 15% dos jovens estavam no ensino médio. Então a gente tinha um ensino médio muito restritivo, para poucos, para a elite. Não era para todos. Não era um ensino médio para todos, não era uma educação básica para todos. O que aconteceu é que a gente expandiu, mais recentemente, a oferta, a qualidade caiu, de fato, e eu acho que essa é a grande luta do Todos Pela Educação. É elevar a qualidade de ensino. A falta de prioridade na educação, a estratégia equivocada dos governos sucessivos de não investir nas pessoas, de achar que é possível a gente construir um país melhor, seja lá qual for o projeto de país dos governos que a gente teve. Essa premissa de que era possível construir um país melhor sem investir nas pessoas é algo tão equivocado e que a gente paga um preço tão alto que a gente precisa reverter. É preciso que a sociedade brasileira passe a demandar mais educação com qualidade para todos,  combatendo a desigualdade. Então, o que a gente precisa é de equidade com diversidade. A gente não quer um país igual, a gente não quer um país com todo mundo igual. A gente quer um país que tenha equidade nas oportunidades, que cada um tenha um ponto de partida parecido. O que a gente não pode é fazer com que uma criança, porque ela nasceu naquela cidade, naquela família, ela não tenha oportunidade de colocar o seu projeto de vida de pé.”

Allan Menengoti – “E de que forma a educação, por exemplo, influencia para uma democracia melhor? A democracia deveria ser tratada ou começar a ser ensinada em sala de aula?”

Priscila Cruz “Eu tenho algumas ideias importantes para um país que funcione em plena democracia. Uma é você assegurar os instrumentos para que esse cidadão – e cidadão é pequenininho, não é só quando começa a votar – que todos os brasileiros consigam navegar pelos sistemas nacionais. Eleições, debates públicos, emprego, renda, opiniões diversas. Você tem que saber navegar na sua sociedade e isso é fundamental com as habilidades e as competências que a escola tem obrigação de garantir para todas as crianças e jovens e para os adultos que não tiveram oportunidade também. Então, a aprendizagem é o primeiro bloco fundamental. O segundo bloco é esse que a gente já discutiu que é equidade nas oportunidades. A gente precisa distribuir oportunidades para poder ter uma sociedade mais democrática. Qual é um dos grandes perigos da democracia? O que  está fazendo com que a democracia seja questionada? Uma parte tem a ver com a escola. Você vê no ensino médio, 3 de cada 10 alunos sabem diferenciar fatos de opiniões. Então, 70% dos alunos que concluem o ensino médio no Brasil não sabem diferenciar aquilo que é uma opinião e aquilo que é um fato, aquilo que é um dado, que é uma evidência, e aquilo que é uma opinião meramente ideológica. Aí você consegue fazer uma série de mentiras e as pessoas engolem essas mentiras, porque elas não tem e não adquiririam a competência de saber diferenciar fato de opinião. Então a educação tem tudo a ver com a democracia em várias dimensões.”

Allan Menengoti – “E a gente vive um efeito dominó no Brasil. Um professor mal formado que prepara o aluno mal formado e que depois se torna um profissional mal preparado. Qual que é o cenário no aprendizado hoje no Brasil?”

Priscila Cruz –Primeiro a notícia boa, né? As boas notícias, depois as notícias ruins.  Duas grandes notícias boas. Primeiro é que o Brasil, nos últimos anos,  foi capaz de construir e começa a implementar políticas de base para a gente conseguir melhorar a qualidade de ensino. Então, o sistema de financiamento FUNDEF e FUNDEB (agora vai ter o novo FUNDEB que vai ser aprovado esse ano e depois regulamentado no ano que vem. Uma PEC depois de um PL). Então, sistema de financiamento muito melhor organizado hoje do que era 10 anos atrás. Sistema de avaliação. A gente sabe o que acontece na aprendizagem dos alunos por escola, por estado, por município, por região, pelo país. Então, a gente tem a Prova Brasil, o Enem, Pisa. A gente participa das avaliações internacionais. O Brasil realmente tem uma quantidade de informações e dados que é um instrumento muito poderoso para a população poder cobrar qualidade. A gente tem agora, mais recentemente, a aprovação da Base Nacional Comum Curricular. Então a gente tem um currículo nacional – que não garante, porque isso precisa de políticas para serem implementadas – mas é um currículo que diz o seguinte: aluno do primeiro, do segundo, do terceiro, do quarto, do médio, você tem direito de aprender isso aqui. As famílias agora tem o documento para fazer o seguinte: o meu filho aprendeu isso aqui? Isso aqui faz parte do currículo da escola? A escola está garantindo a aprendizagem? Então, alguns instrumentos de base foram construídos e eles já começam a produzir resultados. A segunda boa notícia é que no fundamental 1, que é o antigo primário, então no quinto ano, que é o final do fundamental 1, o Brasil avançou, mais do que avançou, o Brasil deu um salto de qualidade de aprendizagem. Uma coisa que as pessoas falam muito pouco, porque a gente, às vezes, foca muito nas más notícias. Mas o Brasil saiu de 28% das crianças com aprendizagem adequada em língua portuguesa,  isso 10 anos atrás, e hoje a gente chegou em 60%. Não tem nenhum outro indicador social, econômico. Não tem   nenhum outro indicador que tenha saltado tanto no país. o tanto no país. Então, de novo, de 28 para 60 e crescendo, com tendência de crescer. Então, eu sou otimista e com todas essas as ações a gente vai chegar num patamar muito mais elevado de qualidade de ensino. Agora as más notícias, são várias. Eu vou selecionar duas aqui. Uma primeira é que a evasão é muito grande. A gente tem um funil. As crianças entram na escola e elas estão saindo. Dessas que saem, 64% dos jovens concluem o ensino médio até 19 anos de idade. Então é um funil, a gente precisa transformar esse funil num cilindro. Entrou e saiu, na idade certa.”

Allan Menengoti – “Qual o reflexo para a democracia de um país com tanta perda de potencial na área do ensino?”

Priscila Cruz – É enorme. Porque você está entregando para o país uma educação para esse jovem, que vai fazer com que seja muito difícil ele navegar nessa sociedade cada vez mais do conhecimento. Ele ter um emprego decente, emprego que dê sustento para ele e para sua família, que ele consiga colocar o seu potencial a favor de si próprio, da sua família e do país. Então tem consequências enormes. E até no campo da Segurança Pública, que é uma preocupação de todos os brasileiros. Para cada 1% de jovens que você evita a evasão, a gente tem uma queda de 2% na taxa de homicídios. Evasão tem muito a ver com homicídio, com assassinato no país, com violência. Então isso tudo vai minando a democracia, vai minando a sociedade, vai minando a tolerância da população em relação à projetos políticos, ao projeto de país. As pessoas estão cansadas de violência, desemprego, e isso tudo tem a ver com educação. E a gente está tratando esses temas com as estratégias erradas. Está tratando com repressão, está tratando com reformas que não são a base do crescimento para o país, que é a educação.

Allan Menengoti – “Você avalia que a classe política não entendeu ainda que o investimento na educação tem reflexo na economia, na segurança e em diversas áreas da sociedade? ”

Priscila Cruz –Olha, eu acho que eles sabem. Tanto é que, quando tem campanha eleitoral, eles prometem educação. Sempre é um dos temas que está na boca dos políticos. Eles entendem. Os políticos hoje não tem um incentivo para realmente ter um compromisso com a educação e acabam focando naqueles resultados de curto prazo, aquilo que eles podem mostrar, que eles podem tirar selfie, que eles podem tirar uma foto, que eles podem estar no jornal. Então a gente tem que mudar o incentivo que a gente da para os políticos. A gente tem que começar a cobrar mais ações efetivas para a qualidade de ensino.”

Allan Menengoti – “Então vamos falar sobre isso. Desde de 2018 o Todos Pela Educação coordena iniciativas com propostas de medidas urgentes que precisam ser implementadas pelo Governo Federal. Que propostas são essas? Como que o Governo Federal recebeu esse projeto? E já começou a ser feita alguma coisa?”

Priscila Cruz – Desde do lançamento do Todos Pela Educação, em 2006, a gente vem trabalhando com propostas para governos. Essa que você está mencionando é a mais recente e ela é a mais completa e mais profunda. De fato, a gente ficou trabalhando dois anos com uma série de especialistas. Foram 80 especialistas do Brasil inteiro envolvidos na construção de um plano estratégico muito detalhado, de tudo o que o Brasil precisa fazer até 2030 para que o Brasil suba 50 pontos no PISA. Então, o que a gente construiu foi o seguinte. Nação brasileira: governo federal, estados, municípios; gestores federais, gestores estaduais e municipais; legislativo federal, estadual e municipal, se vocês querem se comprometer com ações e estratégias que vão fazer o Brasil melhorar a qualidade do ensino, está aqui tudo o que a gente precisa fazer.´ Então a gente fez esse documento que se chama “Educação Já”. E esse documento, na verdade é uma série de documentos, tem um documento introdutório que apresenta as sete prioridades que a gente precisa avançar no país e, para cada uma dessas sete prioridades, a gente tem um documento muito detalhado para podermos estudar a educação, entendermos o que o Brasil precisa fazer para poder melhorar a qualidade do ensino.

Allan Menengoti – E vocês mostram o que precisa ser feito e como fazer.

Priscila Cruz – Exatamente. Não é uma bandeira. Não é educação integral, não. Então, ensino médio em tempo integral, mas como fazer? Como começar? Qual é a política? Qual que é o instrumento de política? Qual que é o diagnóstico? Como conduzir isso e implementar? Então ele realmente é bem detalhado. Essas 7 prioridades, acho que vale a pena mencionar. A primeira é a primeira infância. Primeira infância entendendo não é só educação. É todo o atendimento para as crianças de 0 a 5 anos, mas com ênfase do 0 aos 3, em educação, saúde, assistência, cultura e esporte. Esses três primeiros anos da vida de uma criança são determinantes para formação cerebral, para o desenvolvimento cognitivo, físico, emocional, social. É fundamental a gente cuidar das crianças.”

Allan Menengoti – “Os especialistas dizem que é o período que você estimula a criança para o futuro.”

Priscila Cruz – Isso. É o período de ouro da humanidade. Se tem um período que é de ouro, de qualquer pessoa, é dos 0 aos 3. Depois a gente tem alfabetização, lembrando que 55% das crianças de 8 anos não estão alfabetizadas plenamente. Então é um problemão isso. A gente precisa garantir que toda criança esteja alfabetizada. O terceiro é a Base Nacional Comum Curricular. É implementar e fazer esse currículo nacional chegar na ponta, chegar na sala de aula e garantir que as crianças aprendam. Tem uma série de estratégias coordenadas para que a gente garanta que a base nacional seja assegurada para todos os alunos. A quarta é a reforma do ensino médio. Ensino médio em tempo integral, diversificado e com educação profissional técnica. Então, nessas três estratégias também, tudo muito detalhado. Financiamento, obviamente, para tudo o combustível é o recurso. O Brasil não investe pouco em educação como um todo, mas o investimento per capita por aluno ainda é baixo, porque a gente tem quase cinquenta milhões de alunos no país.  É bastante dinheiro, mas ele tem que ser dividido por muitos alunos. O Brasil ainda é um país de população jovem, então o Pib per capita é baixo. A gente tem uma série de estratégias para poder redistribuir, distribuir melhor esses recursos, e fazer com que eles cheguem melhor na ponta. O sexto é governança. Governança e gestão. Isso tem muito a ver com o Sistema Nacional de Educação, gestão da secretaria, gestão escolar, diretor escolar. Enfim, toda uma série de estratégias. E, por fim, e mais importante, na verdade, é professor. Então, a gente tem uma série de recomendações de políticas docentes em 5 dimensões: atratividade, formação inicial, formação continuada, carreira e condições de trabalho.”

Allan Menengoti – “Pois é, eu ia falar sobre os professores. Os dados do Todos Pela Educação mostram que 49% dos professores no Brasil não recomendam a profissão deles para os alunos. Que reflexo teria na nossa democracia se houvesse mais investimento nos professores?”

Priscila Cruz –Seria um efeito radical. Positivo radical. O professor é o fator mais determinante para a qualidade do ensino. Todas as medidas que eu falei são medidas para que a gente garanta bons professores dando aulas incríveis em cada sala de aula. O mestre da sala de aula, quem conduz a sala de aula, a liderança da sala de aula é o professor, tem que ser o professor. Os países vencedores, que tem uma economia forte, que tem emprego, que as pessoas têm renda, que as pessoas têm menos violência, são países que investem no professor. Investir no professor, priorizar professor, dá todo foco no professor, não significa passar a mão na cabeça. Não significa tratar o professor como se fosse um bibelô, não é. A gente precisa remunerar bem professor, formar bem professor, atrair os melhores alunos do ensino médio para a carreira docente e cobrar resultado, porque esse é o profissional mais importante do país. Ele é tão importante que eu não posso, como cidadã brasileira, e nós todos como cidadãos brasileiros, a gente não pode não cobrar resultado desse profissional. Ele é muito importante. A gente está fazendo o contrário no país. A gente tem um professor com políticas docentes muito fragilizadas. A gente não atrai os melhores alunos do ensino médio. A gente tem uma formação que, inclusive, a gente tem repercutido esse dado agora mais recentemente, inclusive a formação de professores, pedagogia e licenciaturas, são as formações que têm mais crescido a educação à distância. Onde que cresce o EAD? Na formação de professores, que é o profissional que mais precisa de educação de qualidade articulando prática e teoria. Você entraria em uma cirurgia com médico formado a distância? Que foi pra a universidade, para a faculdade, só aos sábados pra fazer a prova? Você colocaria a sua vida na mão de um advogado, que vai te defender, um advogado formado a distância? Você confiaria em viver num prédio projetado por um engenheiro formado a distância? A gente não admite isso! Por que a gente admite com o profissional mais importante? Que na verdade é quem está salvando vidas, é quem está construindo o Brasil, é quem está defendendo a gente em relação a um país melhor. A gente está admitindo isso.

Allan Menengoti – ” É um alerta que você faz?”

Priscila Cruz – Eu acho que é uma inversão completa. A população brasileira tem que ser inteligente e esperta o suficiente para dizer o seguinte: de tudo isso o mais importante é a educação. Então se você não está me dando uma educação de qualidade  eu vou cobrar e eu vou penalizar nas urnas quem não fizer. E eu vou beneficiar nas urnas quem fizer mais pela educação. Então, eu acho que a gente tem que chegar num nível de intolerância em relação a má qualidade do ensino brasileiro. Isso tem repercussões em todas as dimensões das nossas vidas.”

Allan Menengoti –  Um exemplo positivo vem de Pernambuco e do Ceará, é uma região do Brasil conhecida mais pela pobreza e sempre foi falado da precariedade da educação. E tem vindo notícias positivas. O que esses estados tem pra ensinar para o restante do Brasil?

Priscila Cruz – Muito, né! Então essa tema que você está levantando é muito bom. A gente tem felizmente alguns estados, e os estados são fundamentais. A gente às vezes fica falando muito de Governo Federal. O Governo Federal tem uma repercussão, ele tem uma influência grande, não vou minimizar, mas os estados, os municípios são, de longe, os mais importantes para a educação básica. E os estados, especialmente, são aquele elo de ligação entre União e os municípios e eles, em regime de colaboração, podem ser grandes indutores de qualidade nos municípios, que é justamente o que aconteceu no Ceará. O Ceará entendeu, como Estado, que precisava apoiar os seus municípios. Então, lembrando: os estados são responsáveis pelo ensino médio e pelo fundamental 2 de forma compartilhada com os municípios. E os municípios são responsáveis pela educação infantil e pelo fundamental 1,  compartilhando o fundamental 2. O que o Ceará entendeu? O óbvio. Ele falou o seguinte e isso já tem quase 20 anos. Ele entendeu o seguinte: se eu não cuidar dos municípios, essas crianças vão chegar no ensino médio analfabetas. Como que eu vou fazer um bom trabalho no ensino médio se essas crianças estão chegando dos municípios com uma educação de baixa qualidade?  Então eles arquitetaram uma política para trabalhar junto com os municípios e garantir que essas crianças se alfabetizem e aprendam tudo aquilo que elas tem direito de aprender para que depois elas cheguem no estado com um patamar mais elevado de aprendizagem e aí o estado consiga fazer um bom trabalho com elas. O Ceará trabalhou com os municípios, teve continuidade de políticas públicas. A gente tem um período de quase 20 anos de continuidade. Não teve destruição de políticas. Isso fez com que o estado do Ceará tivesse um resultado incrível. Das 100 melhores escolas brasileiras, 77 são do Ceará.

Allan Menengoti –  Que dado, hein?

Priscila Cruz – É um super dado. O Ceará, apesar de ser um estado com PIB per capita menor, entre os piores o Brasil, tem um dos melhores resultados educacionais. Então isso mostra que é possível. Se o Ceará fez é possível que todo mundo faça. Então, agora precisa fazer. Pernambuco agora está indo na mesma direção do Ceará. Espírito Santo fez uma gestão excelente também no ensino médio. Então, a gente tem aí bons estados com bons resultados. E o estado de São Paulo está numa direção boa também. Eu tenho esperança. Eu acho que, por tudo o que a gente consegue monitorar, o estado de São Paulo também vai começar a apresentar bons resultados.

Allan Menengoti – “A gente sabe que na educação tem alguns pontos que melhoraram bastante, mas ainda tem muita coisa para ser feita, mesmo o Brasil estando entre os 10 países economicamente mais poderosos aí do mundo. Nesses anos de crise eu queria que você me respondesse quem são os culpados pela educação no seu eixo central do nosso país? Por outro lado, quem são os responsáveis pelas melhoras que tiveram no país?”

Priscila Cruz Olha, é uma boa pergunta. Daria para a gente ficar falando bastante aqui (risos). Olha, vamos falar de responsáveis e não de culpados, porque em geral as coisas são muito compartilhadas. Uma coisa que eu gosto da democracia, é que a gente não pode ir justamente por esse caminho de achar que heróis vão solucionar os nossos problemas. Não tem nenhum mito, nenhum herói, não tem ninguém que vai solucionar nossos problemas de forma sozinha, isolado, não é ele que vai. Sempre a responsabilidade é de todos nós. Se a gente tem políticos que não priorizaram a educação, é porque, de certa forma, a população brasileira também não demandou isso. Então, a gente precisa virar o jogo e trazer para nós a responsabilidade e as soluções. Quando o Todos Pela Educação, que é uma organização da sociedade, produz soluções, dialoga com governos e não entra muito na questão de ser contra ou favor de um governo, de uma ideologia, de um dogma, mas está lá para poder fazer um diálogo propositivo, a nossa tese é que é esse o caminho que vai fazer com que a sociedade passe a ter uma atuação mais forte. E isso é muito democrático, esse tipo de espaço é um espaço fundamentalmente democrático. É quase que a concretização, no seu ápice, da democracia, É quando, a sociedade, consegue dialogar com o governo e trazer soluções, ser propositiva, cobrar também, colocar o dedo e dizer o seguinte: olha, isso aqui é um absurdo, isso aqui não pode acontecer. Os políticos  são o reflexo dessa população brasileira. Então, eu acho que a mudança tem que vir de nós. A população brasileira mudando, e esse tipo de trabalho que vocês (I.AM Democracia) fazem de trazer informação, de abrir os olhos e fazer com que as pessoas enxerguem quais são as suas verdadeiras missões e qual é o engajamento mais importante de cada um, é a mudança na sociedade que vai fazer com que a política melhore. Eu não acho que a política vai melhorar  porque vai chegar um herói e que vai fazer com que tudo vire, num passe de mágica, melhor. Isso não existe, não existe em lugar nenhum no mundo. O Brasil não vai produzir essa inovação, não vai. O que a gente tem que entender é que a democracia nasce, um país melhor nasce na sociedade. Somos nós que vamos construir um país melhor evitando retrocessos e fazendo avançar aquilo que a gente precisa melhorar.”

Allan Menengoti – “Priscila, olhando para juventude escolar e as suas lutas para uma educação melhor, a gente pode esperar uma noda e mais saudável democracia pro século XXI?”

Priscila Cruz “Eu espero que sim. Eu acho que a gente está melhorando os resultados, claro que mais lentamente do que a gente precisa. A grande questão, o que nos preocupa muito, é o seguinte. A sociedade está ficando cada vez mais complexa, os ambientes de trabalho estão cada vez mais complexos e o mundo do trabalho cada vez mais complexo. E essa complexidade, esse avanço, está indo mais rápido do que a nossa capacidade de também melhorar a educação. Então, a educação está melhorando no Brasil. A sensação que a gente tem é que não está, mas ela está melhorando. O filme é bom. A gente não está indo para trás, a gente não está estagnado. Acontece que o mundo está avançando mais rapidamente, então, de forma relativa, estamos ficando para trás. Então, me preocupa. Eu acho que isso pode ter muito a ver com o enfraquecimento da democracia, da economia do país. Isso pode gerar uma degradação das cidades, dos ambientes, de segurança. Acho que isso pode levar a uma situação mais grave do que a gente tem hoje no país.

No caso da gente melhorar a sociedade e fazer com que a gente tenha uma potência, inclusive para poder depois melhorar as outras questões, a gente sabe o que a gente tem que fazer. A gente sabe que tem que melhorar a qualidade do ensino, a gente tem que garantir que toda criança entre na escola, permaneça e conclua. Garantir a aprendizagem. Como fazer isso? A gente já tem as sete coisas que a gente precisa fazer no Brasil com excelência. Será uma derrota para o país, para os brasileiros, para nossa sociedade, para a nossa democracia, para as nossas cidades, para a nossa qualidade de vida, para o nosso potencial do que a gente pode construir se a gente não fizer isso. Então acho que a gente tem que mudar. O Todos Pela Educação trabalha muito para que a gente mude essa situação. E eu confio que a população está começando a ficar cada vez mais atenta para essa questão. A gente precisa intensificar. Então, trabalhos como o de vocês (I.AM Democracia)  tem que ser somado, a gente tem que somar outros e mais outros…”

Allan Menengoti – Somar forças.

Priscila Cruz –Somar forças. Mais vozes falando o seguinte: não tem condição. O Brasil nunca, nunca será um país melhor, mais justo, maior. Se a gente não investir na educação, se a gente não fizer isso, aí realmente a gente vai fracassar.”

Allan Menengoti – “Se a futura ministra da educação saísse do Todos Pela Educação, qual seria o problema mais difícil que você selecionaria para se resolver a longo prazo e o que seria o mais fácil e que não foi resolvido?”

Priscila Cruz – “Olha, o mais difícil e complexo é garantir a aprendizagem num sistema muito heterogêneo. Você garantir a aprendizagem para todos num patamar mais alto, combatendo as desigualdades. Esse é o grande desafio do Brasil. Você tem que articular com todos os atores, com todas as etapas. Imagina que a gente tem um sistema que tem: um Governo Federal, Ministério da Educação, as Secretarias estaduais, todas as Secretarias municipais. Todas elas precisam trabalhar de forma alinhada. Esse é o grande desafio. O desafio é um desafio de liderança, não é um desafio de autoridade. Não basta ser ministro. Não basta estar lá na cadeira. É um desafio de liderar um movimento articulado, alinhado de implementação em alto nível de uma série de ações coordenadas. Esse é um grande desafio.”

Allan Menengoti – “E isso refletiria na nossa democracia.”

Priscila Cruz – “Sem dúvida nenhuma. Porque aí, como a gente vem conversando aqui, uma educação de qualidade é o bloco construtor de uma nação democrática. Não existe uma nação verdadeiramente democrática sem uma população que tenha tido educação de qualidade assegurada. Pelo menos essa é a democracia que eu gostaria de ter. A democracia que eu gostaria de ter para o Brasil é uma democracia forte, com uma população preparada pra construir um país melhor. E isso só acontece com educação de qualidade.”

Allan Menengoti – “E nesse contexto qual que é a relevância que você enxerga num instituto como o nosso, o I.AM Democracia, para o aprimoramento da democracia, com o intuito de debater essa democracia com pessoas relevantes da sociedade e que fazem diferença?”

Priscila Cruz –  Eu acho que é mais uma peça, uma peça muito importante, que eu vejo que cada vez mais a gente tem que ter outras iniciativas dessa pelo país para a gente, o tempo inteiro, como sociedade, sermos atores influentes, relevantes, nessa construção. Conhecimento, trazer novas perspectivas, levar debate para a população. Elevar a qualidade do debate público no país é uma estratégia fundamental. Eu acho que vocês estão fazendo um trabalho muito importante para o país. O que não dá é a gente ficar nesse mar de desinformação, de fake news, de anticiência, da gente não levar em conta aquilo que é dado, aquilo que é informação concreta e real.  A gente precisa realmente levar isso para a população. Existe essa onda de fake news, existe uma onda de destruição das bases da democracia que a gente precisa combater. Eu tenho certeza que a população brasileira não quer viver num país antidemocrático, tenho certeza. Mas muitas vezes essa população, por não conseguir diferenciar aquilo que é o real da opinião, daquilo que é fake news daquilo que é fato, acaba sendo levada por uma onda que pode fazer com que o Brasil se enfraqueça nessa área da democracia. E isso vai ter repercussões na educação. Então, não é só a educação que fortalece a democracia, a democracia fortalece a educação. É nesse país democrático em que você pode cobrar do gestor público ações efetivas para educação, sem medo de represálias, é esse o país que a gente tem que viver. Então, acho que iniciativas como o I.AM Democracia e tantas outras, precisam se juntar. A gente precisa se fortalecer, a gente tem que criar agendas conjuntas, porque no fundo, no fundo, não são áreas separadas. Não tem aqui o Todos Pela Educação cuidando de educação e vocês cuidando de democracia, estamos todos juntos.

Allan Menengoti – Com uma mesma bandeira.

Priscila Cruz – É. A bandeira é, no final das contas, melhorar Brasil. O que a gente quer é um pais maior, melhor e mais justo. É o que todo mundo quer, é o que você quer, é o que eu quero, é o que quem cuida da saúde quer, quem está na área de segurança pública quer. Mas a gente precisa costurar esse tecido de várias iniciativas da sociedade e fortalecer, adensar a sociedade brasileira, porque é dessa sociedade que vai sair governos democráticos. Uma sociedade antidemocrática gera governos antidemocráticos. Então a gente precisa fortalecer a democracia na sociedade.