Mario Sergio Cortella é filósofo, escritor, educador, palestrante e ex-professor universitário. É, sem dúvida, um dos maiores palestrantes do Brasil, especialista em traduzir as questões sociais ligadas à filosofia na sociedade contemporânea. É autor de vários livros que instigam a reflexão sobre assuntos como ética, moral, política e democracia.
Cortella já esteve entre os dez finalistas do Prêmio Darcy Ribeiro de Educação. O Prêmio foi criado para contemplar pessoas ou entidades cujos trabalhos ou ações mereceram destaque especial na defesa e na promoção da educação brasileira.

*crédito da foto: JR Duran

Mario Sergio Cortella: Os riscos contemporâneos para a democracia brasileira à luz da Filosofia.

“A democracia no Brasil viveu e vive vários momentos de turbulência. É inerente a democracia a turbulência.  A crise não é um defeito da democracia, ela é uma parte do mecanismo democrático.”

Há anos não se fala tanto sobre a situação da democracia brasileira. Para muitos, o momento atual é desanimador. Por outro lado, especialista apontam para um cenário de euforia cívica muito positivo.

Muito embora as redes sociais tenham acirrado as discussões, as quais acarretaram em rompimentos de amizades e polarizações políticas, crises, embora não apresente tamanha clareza em primeiro momento, podem ser de extrema importância para o aprimoramento do regime de governo adotado pelo Brasil há 31 anos, com a promulgação da Constituição Federal da República, a Constituição cidadã de 1988.

Mas afinal de contas, onde começa a democracia que a gente tanto fala, discute e até briga para ter? Ela poder ser ensinada? Como aprender a conviver com a democracia?

Quem vai nos ajudar a compreender todos esses questionamentos é um dos mais celebrados pensadores da atualidade. Filósofo que procura transformar e interpretar assuntos densos, contribuindo significativamente para a nossa compreensão. O nosso Elo da Democracia deste mês é Mario Sergio Cortella.

Allan Menengoti – “Muitas pessoas conceituam a democracia como a possibilidade de alternância do poder na hora do voto. Isso não é pouco? Como que o senhor definiria a democracia a luz da filosofia?”

Mário Sergio Cortella “A alternância é uma das formas como a democracia funciona, isto é, um dos mecanismos democráticos. Não é obrigatória como forma direta. Isto é, eu posso ter em algumas democracias a eleição de pessoas de modo sucessivo e em outras delas isso é vedado. Você imagina, no legislativo não há uma obrigatoriedade no Brasil nem em outros países – não em todos, mas em boa parte deles – de que não haja reeleição. E isso é muito mais colocado no que se refere ao executivo. O executivo sim que tem em várias nações bloqueio para a continuidade. Mas a democracia, acima de qualquer coisa, ela é um modo de existir em que a gente entende que a construção da vida coletiva é uma obra coletiva e, portanto, ela nem é algo de exclusividade de um grupo e nem ela é algo que exclui qualquer grupo que participe dessa comunidade. Nesse sentido, ao contrário até do que algumas pessoas imaginam, a democracia não é a ausência de regras, ela é a construção coletiva das regras. Nessa hora, é claro, eu sempre também trago a tona que a democracia não é a ausência de ordem, ela é a ausência de opressão.  É a democracia que impede, na contemporaneidade, que haja a opressão de pessoas sobre pessoas. É ela que recusa o fratricídio, é ela que busca fazer com que, como o horizonte, nós sejamos capazes de fazer com que a nossa vida seja decente, para todas e todos. Nessa hora a democracia tem a alternância do poder comum dos seus mecanismos possíveis para o executivo, como eu lembrava, no legislativo nem sempre.”

Allan Menengoti – “Se a democracia pode ser conceituada, ela pode ser ensinada? Por onde deveria começar esse ensino?”

Mário Sergio Cortella “A democracia, não só ela pode ser conceituada, compreendida e iluminada, como ela pode ser ensinada como prática. Evidentemente que esse modo prático de ensino se dará a partir da exemplaridade. Não tem como exercer a democracia a não ser pela exemplaridade. Um processo participativo é uma parte da democracia, mas nem todas as estruturas que são participativas são democráticas. E eu sempre retomo: uma sala de aula é uma estrutura participativa, mas ela não é uma democracia e nem deve sê-la, afinal de contas uma sala de aula, por exemplo, eu que sou docente, eu sou a autoridade e não o sou de modo usurpado, mas socialmente consentido. Ali sou eu que faço a orientação, o ordenamento,  aquilo que iniciamos, terminamos, peço às pessoas atenção, isto é, não há uma igualdade de poder, existe uma igualdade de dignidade, existe uma igualdade de relevância humana, mas não de poder. Uma família não é uma democracia no sentido de constituída por pais ou responsáveis e por filhos. É um equívoco supor que se possa trazer esse conceito para a estrutura familiar. Numa família, adultos responsáveis por não adultos, seja como lei, seja como afeto – e o melhor é quando ambos se juntam – tem a necessidade de subordinar os outros, eles estão sob as suas ordens, são subordinados. Quando há subordinação de uma parte, em que essa parte está sob a ordem contínua da outra sem alternativa, não há democracia. Por isso, sim, a exemplaridade da democracia se dá, por exemplo, na escola como uma das maneiras, quando se explica como é que ela se estrutura e funciona e também fazendo com que haja práticas de formação democrática: o grêmio estudantil em vários lugares, aquilo que em algumas cidades no Brasil e no mundo se chama de câmara jovem, que permite que uma parcela das pessoas que estão na educação básica dirijam a sua formação junto até ao legislativo da sua cidade como sendo uma prática desse conhecimento, uma assembleia da ONU, que algumas simulam. Tudo aquilo que permite que haja uma estrutura que se assemelhe ao que será uma democracia, quando aquela pessoa, com direitos de cidadania completa e de exercício, inclusive, como cidadão votante e votável, tiver, que ela possa exercê-lo de modo consciente e deliberado”.

Allan Menengoti – “E há na história da educação brasileira uma preocupação dessa relação entre a democracia e a  educação?”

Mário Sergio Cortella “Menos. Se nós olhamos um país como o nosso que vai ter, num futuro não tão distante, 5 séculos e 20 anos, mas nós não podemos falar no Brasil nesses 519 anos, por exemplo, que a gente teve algum tipo de escolaridade com essa preocupação. Primeiro, por que o Brasil da Colônia e o Brasil do Império tiveram uma preocupação muito lateral com o processo de educação escolar. Nós vamos ter a inserção do tema mais forte da educação escolar no nosso país a partir de 1930. A revolução liberal de 1930 trará isso dentro da sua estrutura de compreensão, especialmente um termo que será trazido que é a “democratização da escola”. Isto é, a escola como sendo um direito público. Mas ainda assim, nós só teremos essa condição a partir da constituição de 1988, de modo mais extenso. Se nós imaginamos que nós fomos fundados em 1500, se nós lembramos que a nossa República é proclamada em 1889, mas se nós lembrados que a primeira eleição livre, de fato, do país, é em 1989 – 100 anos após a Proclamação da República – quando qualquer pessoa adulta a partir de 16 anos pode votar – porque os analfabetos eram, nas constituições anteriores, excluídos do processo e ⅓ quase da população brasileira acima de 15 anos foi analfabeta durante muito tempo de 1950 até 1980 – a capacidade nossa de olharmos a presença da relação entre a educação e democracia é muito tênue ainda, ela é muito incipiente. Nós iniciamos isso no Brasil nas três décadas mais recentes. Não como uma preocupação. Por exemplo: a temática daquilo que se chama de organização social e política do Brasil como disciplina ou como educação moral e cívica. Ao contrário do que alguns imaginam, essas áreas não foram introduzidas no currículo escolar durante os momentos autoritários mais recentes. Aliás, quem propôs uma conversa sobre organização social e política foi Anísio Teixeira, um dos maiores educadores junto com Darcy Ribeiro. A disciplina educação moral e cívica já existia como proposta desde os anos 40, portanto faz parte da ideia liberal geral que haja essa formação. Mais o exercício prático menos.”     

Allan Menengoti  “Mas essa disciplina foi retirada da sala de aula O senhor acha que deveria retornar?”

Mário Sergio Cortella “Não, ela esteve presente durante o governo ditatorial militar empresarial, entre os anos de 64 a 85. Depois ela foi retirada do próprio currículo e depois ela foi entendida como tem que ser, ao meu modo de ver, como sendo um conteúdo curricular. Nós temos de lembrar uma coisa, na escola – quem não é da área nem sempre sabe – existe componente curricular, que é a matéria, a disciplina, e conteúdo curricular que é o assunto. Por exemplo, orientação para trânsito não pode ser um componente curricular, não a matéria com esse nome,  tem que ser um conteúdo curricular, isto é, um assunto que será tratado pelo conjunto das disciplinas. Ética, democracia, tudo isso tem que aparecer como conteúdo curricular. A gente não pode ter uma matéria chamada democracia. A gente não precisa ter uma disciplina chamada ética, exceto no nosso ensino médio, no final da educação básica, quando já se pode conceituar. Mas o assunto ética não pode se ausentar do cotidiano.”

Allan Menengoti“A democracia é um conceito singular ou no plural? Por exemplo: existe uma democracia do dia a dia diferente da democracia que é debatida na universidade?”

Mário Sergio Cortella Como categoria, isto é, como categoria de pensamento, claro que ela é um conceito geral. Mas o exercício prático que ela tem é diverso. Aquilo que se pode conceituar nos livros, na academia, no mundo das falas,  no mundo daquilo que está consignado, por exemplo, na nossa legislação, não necessariamente reflete o cotidiano de uma sociedade. A gente não tem uma forma unívoca de olhar. Por isso a democracia é plural em dois sentidos: ela é plural porque ela tem que acolher a diversidade e porque ela não é entendida do mesmo modo o tempo todo. Você tem alguns governos pelo mundo afora que tem até a palavra democracia no seu nome. República Democrática, por exemplo, de algum lugar ou de outro que a gente tem aí pelo mundo e você olha e pensa como que isso pode se chamar República democrática?” Mas é o modo como eles entendem a democracia”. Então tem vários modos? Sim, a democracia não é um conceito unívoco, ele é plurifacetado, ele tem vários modos de olhar. Ele é um conceito histórico. Aquilo que alguns chamam de democracia no século XIX não tem a mesma configuração do que os gregos chamavam de democracia no século V e IV a.C e nem o que uma parte de nós entende. Isso não é um malefício. A humanidade se constrói na variedade. E o próprio conceito de democracia, se você olha Rousseau no século XVIII com o discurso sobre a desigualdade entre os homens, tem uma concepção de democracia direta que será diversa daquilo que a Revolução Francesa trará nos seus debates com Diderot, D’alembert, com Voltaire. Mas ambos, isto é, os dois modos estão focados numa compreensão do que significa um governo que seja menos opressor. Se a gente olha a democracia norte-americana, quando ela se constitui a partir dos seus pais fundadores, ela coloca também a noção de recusa a opressão e, portanto, a não intervenção do Estado, do Poder Público, de modo algum. A democracia brasileira mais recente percebe a necessidade do estado intervir, do Poder Público, para promover a ruptura da desigualdade social, não são vários modos.

Allan Menengoti – “Uma avaliação que eu gostaria que o senhor, como filósofo e educador, fizesse. Muitos dizem que a nossa educação, e a gente percebe, não foi bem cuidada nos últimos 31 anos de democracia. Houve também uma falta de cuidado com a nossa democracia?”      

Mário Sergio Cortella – A democracia, eu digo sempre, é uma coisa delicada, nós temos pouco afeto pela democracia. Em 519 anos de história nós não tivemos ainda um período que ultrapassasse 10% do nosso tempo de vida em que a democracia pudesse constituir isso como uma marcha expressiva. Nós temos isso nos 30 anos mais recentes. A escola e a educação não tiveram também exuberância. Por exemplo: algumas pessoas mencionam a escola do passado como sendo uma escola com maior qualidade social, é verdade. Mas quem é que a frequentava? Isto é, qual o número de brasileiros que estava dentro da estrutura escolar? Era um número reduzido. Boa parte da nossa população vivia no campo, na roça, em cidades pequenas sem que houvesse um atendimento escolar. Quando a escola pública se torna pública, ou seja, cumpre a tarefa democrática, ela perder fôlego, porque ela vai ter um nível de investimento, um nível de atenção, um nível de prioridade que será muito rarefeito. Então, a escola pública ao se tornar pública, ela perderá aquilo que no passado se chamava de qualidade, não porque entrou um povo, mas porque, tendo entrado em larga escala, não houve financiamento para essa própria estruturação. Nessa hora, isso significa que, sim, a democracia no Brasil viveu e vive vários momentos de turbulência, é inerente a democracia a turbulência, a crise não é um defeito na democracia, ela é uma parte do mecanismo democrático. A palavra crise tem um sentido muito forte em sânscrito que é a noção de purificação. E a democracia não é um estado estável, não é um estado morno, uma situação em que a gente não tenha turbulências. A democracia  não é de maneira alguma um carrossel, em que você sobe – quem é criança hoje sabe disso, quem já o foi, como todos nós, se lembra, onde você está ali, naquele movimento quase enfadonho do cavalinho que sobe e desce. A democracia é uma montanha-russa. Ela tem momento em que você tem elevações, sustos rápidos, movimentos, o que não pode é desabar a estrutura da montanha-russa. Mas ela não é algo linear, de maneira alguma. Volto a esse ponto, o Brasil nunca teve a consolidação de uma montanha-russa democrática que fosse mais sólida.”

Allan Menengoti – “O senhor avalia que a democracia no Brasil hoje está em crise ou não?”

Mário Sergio Cortella “Ela está em crise, porque isso não é absolutamente impeditivo. Mas ela está em crise e isso não é ruim, a medida mesma em que ela se purifica, se depura, como eu lembrava. O que é arriscado nos tempos atuais é que há vozes muito fortes em vários lugares que não querem a democracia, que não querem que essa estrutura de convivência apareça desse modo, isto é, em que a noção de democracia está sendo substituída pela percepção de uma opressão consentida, como se eu autorizasse alguém a ser meu opressor. A democracia pode sim passar as suas crises. Se você olha as democracias que tem a monarquia como sendo um ponto de apoio ou o parlamento ou a presidência, todas elas, no mundo contemporâneo, têm a condição de superar as crises. É só você lembrar que grandes movimentos de guerra nunca foram iniciados por uma nação democrática. Se você olhar nos últimos 100 anos, guerras, de alguma maneira, em larga escala, como as guerras mundiais, elas tiveram um movimento, por parte das nações com democracia, de maior defesa, isto é, de reação aquilo, o que, de uma certa maneira, não vale o tempo todo e nem de todos os modos, mas é uma tendência geral. Portanto, se a gente olha nessa direção, a democracia ela vive no Brasil alguns momentos de abalamento, e isso não é algo estranhável, mas o grande temor são pessoas que não querem que haja esse movimento. Eu brinco que a grande diferença entre uma democracia e uma ditadura é que numa democracia você pode reivindicar a ditadura, o contrário não. E quando há esse contrário é necessário que a gente repense como é que nós queremos viver. Será que é uma servidão voluntária? Penso que uma boa parte das pessoas que queiram uma vida consciente, deliberada, que ela não deseja isso, assim como eu não desejo.”

Allan Menengoti –  “O senhor mencionada que a democracia não é a ausência de divergência, mas de confronto. Como que o senhor enxerga o Brasil nesse momento? Em especial, eu digo em relação a polarização.”

Mário Sergio Cortella “Quando nós instalamos, dentro de uma sociedade, a lógica da substituição do conflito pela presença do confronto, nós começamos a romper as estruturas. Por exemplo: na democracia o conflito é inerente, há divergência de ideias, de postura de projetos, ela é inerente. É assim que a gente vai movimentando, depurando, se conseguirmos, aperfeiçoando a nossa convivência. Todas as vezes que sai de cena o conflito, cujo resultado final deverá ser o consenso, e nós substituímos a presença do conflito pela ideia do confronto, em que o resultado final não é o consenso, mas a anulação de quem discorda, há uma perda coletiva. Nessa hora o Brasil vive nos últimos anos algo que estava abafado, que estava marcado por uma incapacidade de vir à tona. Nós saímos de um movimento ditatorial dos anos de 1960 até os anos de 1980 e esse movimento caminhou por uma democracia que ganhou fôlego a partir de algumas forças ligadas ao que se chama de campo progressista, mas os campos conservadores não tiveram tempo de se manifestar, diferentemente, por, exemplo, da nação norte-americana que vai alternando. Se você olha desde o final da Segunda Guerra, vai alternando democratas e republicanos, de vários modos e todos sendo reeleitos, exceto Jimmy Carter, os outros foram sendo reeleitos, com oito anos de mandato. Aí vem, você imagina, você tem a substituição de um Ronald Reagan por alguém que mais adiante é Bill Clinton e esse saí e vem o pequeno Bush. Depois chega e vem o Barack Obama e aí vem Donald Trump e a estrutura segue. Ora, isso é conflito. Confronto é quando você entende o outro como teu inimigo a ser eliminado. Porque a nossa democracia é muito incipiente e nós não aprendemos ainda o embate democrático como sendo, sim, a presença da divergência, a aceitação de que alguém não tenha a mesma concepção do que eu sobre religião, orientação sexual, economia, sobre a capacidade de presença ou não do poder público, sobre o que é ecologia, mas que isso não deve nos levar a nos matarmos. Isso deve nos levar a fazer um debate em que haja alguém que seja vencedor, em vez de um adiamento contínuo das soluções, sem que isso implique na anulação. Afinal de contas a gente não pode de maneira alguma esquecer que a democracia serve para preservar a vida coletiva, em vez de ameaçá-la.”

Allan Menengoti – “Qual é o caminho que o senhor enxerga para cuidarmos um pouco melhor da nossa educação, preservamos a nossa história e participar um pouco mais da nossa vida em comunidades?”

Mário Sergio Cortella “Nossa comunidade, em última instância, é numa cidade. Concretamente, só existe vida no município, porque uma cidade é algo concreto. O restante é abstrato. Um estado, uma região, uma federação, é uma abstração. Todos nós vivemos num município. O primeiro passo, e o mais decisivo, e, provavelmente, durante os 10 anos, o único, é que a gente participe das estruturas de poder na nossa realidade local. Por exemplo, o nosso modo de gestão da educação nos três níveis da federação  tem um ordenamento jurídico relativo à participação popular no conselho municipal de educação, na comissão de educação do legislativo municipal, que é a Câmara. Se a gente consegue trabalhar naquilo que é o lugar onde moramos, mesmo que sejam cidades grandes, como é o caso das metrópoles, e ter uma noção clara de quem é que a gente escolhe para cuidar do lugar onde a vida exista de fato, que é a nossa cidade, a gente pode ir aos poucos ir elevando essa possibilidade para outras dimensões ou para outros, usando um termo técnico, entes da federação.”

Allan Menengoti – “Voltando para a filosofia, o senhor avalia que um povo que cuida melhor da sua democracia é mais feliz? Tem uma relação intrínseca entre democracia e felicidade?”

Mário Sergio Cortella “Uma das coisas que é mais forte nos nossos tempos é a noção de uma felicidade como sendo a preservação da vida sem sofrimento inútil. E eu acho que a democracia, em grande medida, é promotora da possibilidade da recusa ao sofrimento inútil. O que é o sofrimento inútil? É aquele que não precisaria acontecer. Mas você diz: mas tem sofrimento útil?. Em princípio, muito levemente. Aquele sofrimento que vem de um exercício que você tem que fazer para ter uma melhor condição, a necessidade de dieta, a capacidade de estudar muito para chegar a algum lugar ou trabalhar bastante, sim, é levado a um certo sofrimento, mas tem um objetivo que é mais amplo. Mas eu falo de outra coisa que é o sofrimento evitável. O sofrimento da fome sem alternativa, da escola sem possibilidade, da saúde sem socorro. Esse é um sofrimento evitável. Evitável para quem? Para a outra pessoa. Nesse sentido, claro, a democracia não é que ela promove a felicidade, mas a democracia favorece as condições para que o sofrimento evitável não tenha o seu lugar. Mas se ele tem o seu lugar e aparece entre nós, é algo que a gente precisa tirar desse lugar. Eu serei mais feliz, eu, Cortella, se eu for capaz de participar de um processo de afastamento do sofrimento evitável meu e de outras pessoas.”

Allan Menengoti – “A gente falou aqui em educação, cidadania, ética, política. Quais seriam os princípios amigos da democracia?”

Mário Sergio Cortella “A democracia tem, antes de mais nada, a percepção da participação como sendo uma das suas marcas mais fortes. Como diz a antiga frase “os ausentes nunca têm razão”. “Os ausentes nunca têm razão” significa que a participação  é marca constitutiva do processo democrático. Outro deles é a consciência clara dos objetivos. Qual é a finalidade daquilo que fazemos? E porque o fazemos conjuntamente? Então, participação e consciência. E em terceiro lugar, aquilo que é uma cidadania que se dá na prática, portanto, uma cidadania ativa, que é aquela que não se contenta em ser contemplativa e faz da participação algo que ultrapassa a mera manifestação de opinião, que hoje o mundo digital favorece imensamente, por conta até de eu poder me expressar e imaginar que eu já estou participando de modo intenso apenas porque eu manifestei numa rede social qual era a minha compreensão. Então esse tripé, para mim, é ele que constitui o cerne. A participação, a cidadania ativa e, mais que tudo, claro, acima de mais nada, algo que marca a nossa condição a percepção de uma consciência deliberada.”

Allan Menengoti – “O senhor menciona também que há algumas grandes mentiras na democracia, não é? Quais seriam algumas delas?”

Mário Sérgio Cortella ” São dois grandes mitos a serem afastados e que a democracia precisa ajudar a entender. O primeiro é que tudo é possível com a democracia. Não! O segundo é que nada é possível. Esses dois mitos têm que ser deixados de lado. Por isso há algumas quimeras na democracia e às vezes ela indica para nós uma sensação participativa. Nós temos visto no Brasil,  nos 20 anos mais recentes, com as apurações, com os debates, com imprensa livre, com uma democracia mais constitutiva, com a capacidade de um estado de direito que começou a caminhar de modo mais robusto. Temos visto o quanto a gente nem sempre, como cidadão, imaginava todas as tramas que existiam entre o privado e o público, entre o empresarial e o governamental, entre pessoas que trouxeram para nós uma decepção forte. A grande vantagem da democracia é que quem nos decepciona pode ser substituído. E nesse sentido essa é uma grande marca que ela carrega. Mas uma das formas que a democracia se acautela, para não produzir em nós o autoengano, é que ela afasta todos os oportunistas. Não é verdade. Há  muitos que se beneficiam da democracia e, por isso, a democracia não é sempre marcada por pessoas democráticas o tempo todo. Alguns nela estão e a defendem enquanto ela for útil. Portanto esse utilitarismo não é tão nítido em todos os momentos.”

Allan Menengoti – “Essa resposta do senhor trouxe uma carga muito forte sobre a questão ética. Qual seria a relação saudável entre a democracia e a ética? E qual que seria a mais sensível para perecer numa democracia desestruturada?”

Mário Sergio Cortella “A ética  é um campo, como eu dizia, de comportamento. Como é que eu me conduzo na vida? A ética já existiu como forma de conduta antes até de se falar nas democracias contemporâneas. Mas se deseja que a ética seja um dos pontos-chave de uma democracia que ganhe saudabilidade. E a ética não é qualquer ética, é uma ética que, acima de tudo, não tenha vergonha daquilo que faz, daquilo que pratica. Portanto, é uma ética que mostra o rosto. Gente que mostra o rosto nos seus atos e que entende com clareza que ética não é cosmética, assim como não é algo cosmético dentro do campo da política. Não é só uma coisa de fachada. Uma democracia, se ela é de fachada, ela começa a mentir.”

Allan Menengoti – “Por que  o senhor acha que os políticos não entendem disso ainda?”

Mário Sergio Cortella “Alguns políticos?”

Allan Menengoti – “Alguns, é claro.”

Mário Sergio Cortella  “É, uma parte dos políticos entende, outros são usurários. Não são usuários não. São usurários de um modo de vida e acabam tendo uma postura que é absolutamente marcada pelo disfarce, pela dissimulação. Eu acho que a medida em que a gente avança a nossa capacidade de cultura letrada na sociedade, com escolarização contínua, com uma consciência mais aberta daquilo que se tem, esse tipo de pessoa poderá ter uma presença menos comum. Agora, a democracia não evita os canalhas. Ela apenas dificulta a vida dos canalhas, quando ela é boa. Quando é uma democracia frágil, os canalhas vêm à tona, sem nenhuma dificuldade.”

Allan Menengoti – “Quais os desafios que o senhor enxerga para a nossa democracia nesses próximos anos?”

Mário Sergio Cortella Eu acho que nós estamos num processo que eu vivo e digo isso com muita frequência. Eu venho vivendo uma euforia cívica, uma alegria cívica, porque nunca nós discutimos tanto o tema da democracia dentro da nossa nação. Não é que nós não o fizemos antes, mas nós fizemos de modo muito diminuto. Agora não. O modo de governar, o modo de ser governado, a possibilidade de escolha, se as escolhas têm que ser definitivas, a maneira como nós lidamos com as nossas divergências, tudo isso vem à tona. Temas que não estavam no nosso cotidiano, eles passam a fazer parte desse cotidiano, das conversas nossas na família, nos lugares. Claro que as redes sociais também facilitaram bastante essa condição. Outro dia me perguntaram numa entrevista se eu perdi algum amigo em 2018 durante o processo eleitoral, dada a polarização existente. Eu disse não, porque eu não tenho nenhum amigo tonto. E se tonto fosse, a ponto de romper comigo por conta de uma divergência, não poderia ser meu amigo e eu dele ou dela. Portanto, eu não perdi ninguém. Ai disse: e nem na família?”. Mas uma família que é capaz de chegar a ruptura por algo que é uma divergência, que deveria ter uma marca de saudabilidade na reflexão, então ela é uma família que tem um problema muito mais sério do que simplesmente uma escolha de voto. Por isso um desafio marcante, dentro desse momento, é nós aprendermos essa alegria cívica a refletir mais sobre como é que queremos governar e ser governados. Por isso, nós temos que, talvez, olhar a nossa democracia com mais carinho, esse é um desafio marcante. É algo difícil. Uma parte das pessoas com menos de 30 anos de idade não compreende o valor explícito de uma democracia mais sólida. Não participaram, e nem precisaram, de momentos anteriores em que ela esteve ausentada. Portanto, tudo parece meio óbvio hoje em dia. Imaginar que alguém possa escrever o que quiser na sua rede social, no seu livro, no seu muro, se é seu, parece uma coisa óbvia, mas ela não é, porque não foi sempre assim. Poder escolher o seu governante. Eu tenho 65 anos de idade. A primeira vez que eu votei para presidente do meu país foi em 1989. Portanto, eu já tinha uma boa idade. Eu tinha 35 anos a primeira vez que eu votei. Eu já estava quase na idade para poder ser senador da República no passado com algumas marcas. Ora, isso significa que eu passei, digamos, boa parte da minha história como cidadão, a partir do mundo mais adulto, sem essa possibilidade. Um desafio marcante hoje é olhar a história que foi não para ressuscitá-la no que ela tem de dor e mágoa, mas como lição do que a gente deve e não deve fazer em qualquer canto.

Allan Menengoti – O nosso instituto tem a intenção de falar realmente sobre a democracia, levar um pouco mais esse debate para toda a sociedade. Que relevância o senhor vê num instituto com essa intenção, principalmente nesse momento que o Brasil vive?

Allan Menengoti Toda as vezes que homens e mulheres, de qualquer lugar, se unem para pensar naquilo que é o bem – e eu vou usar uma palavra que nem sempre se utiliza de maneira não cínica, que é o “bem comum”, ela pode ser usada de um modo que não é sincero – é importante isso. Quando alguém se estrutura, coloca sua inteligência, sua condição, sua estrutura também de relacionamento, para fazer com que a gente proteja aquilo que merece ser protegido, isso é algo que tem uma relevância. O mais estranho não é quando alguém faz isso, é quando não faz. Aí é que há uma estranheza. Parece até que – eu gosto, durante muito tempo, quando o mundo dos emoticons veio para a nossa convivência – eu às vezes como comentarista de rádio e às vezes também de tv, na tv é possível fazer o que eu vou fazer agora, que é introduzir um novo emoticon que é quando alguém diz “mas tem gente que acha que a gente não precisa proteger a democracia”. Aí tem um emoticon que é assim “epa!”. Um emoticon que é “epa!”. Então esse “epa!” é a marca daquilo que precisa, naquilo que é bom que a gente precisa fazer e que, portanto, nos oferece capacidade de decência, de alegria e, acima de tudo, de responsabilidade. E aí, claro, se isso é feito com homens e mulheres, de fato, de bem, aí a gente consegue alegria na vida. E a democracia ajuda a cuidar dessa alegria. Ela não esgota a alegria, mas ela ajuda a cuidar.

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