Renato Mocellin

Até 1871 o território onde hoje é a Alemanha era um mosaico de pequenos Estados independentes.  O processo de unificação foi realizado pelo reino da Prússia, o mais poderoso do ponto de vista militar, tendo como grande artífice o chanceler Otto Von Bismarck. A confluência dos interesses da aristocracia prussiana com a burguesia das regiões onde o capitalismo mais se desenvolvia engendrou as condições para que o processo de unificação ocorresse. O poderio militar possibilitou as vitórias nas guerras contra a Dinamarca, Áustria e França. Assim nascia o Império Alemão.

Pela Constituição de 1871 a Alemanha era um Estado Federal, contudo a hegemonia da Prússia era evidente, pois possuía um maior número de deputados e o rei da Prússia era também o imperador que podia dissolver o Parlamento e nomear o chanceler. Havia um Conselho Federal que representava os Estados membros e que não era composto por deputados eleitos. Em síntese o Império Alemão não nasceu fundamentado em princípios democráticos.

Nas últimas décadas do século XIX  houve uma aceleração do desenvolvimento econômico, um nacionalismo extremado ganhou força, proliferaram teses racistas, acentuou-se o antissemitismo, aguçaram-se as ambições imperialistas concomitantemente com uma intensa corrida armamentista.  É notório que, em 1914, os alemães quiseram a guerra, viram com entusiasmo o conflito, pois acreditavam que seria uma guerra rápida e vitoriosa. Para as camadas dirigentes, a vitória  possibilitaria uma nova partilha do mercado mundial, o que daria a Alemanha a hegemonia na Europa e quiçá em todo o mundo.

A derrota em 1918 deveu-se a uma série de fatores, sendo determinante a entrada dos Estados Unidos no conflito, o que provocou o desequilíbrio de forças levando à derrocada das Potências Centrais. O esforço de guerra debilitara a economia alemã. O entusiasmo dos primeiros meses deu lugar a um sentimento de frustração e de engano, possibilitando a ascensão das lutas populares e dos movimentos pacifistas. No contexto de crise social e ebulição revolucionária, o kaiser Guilherme II abdicou e fugiu para a Holanda. Formou-se um governo provisório comandado pelos sociais-democratas. Foi um governo de esquerda que assinou a rendição em 11 de novembro de 1918. No ano seguinte, os alemães tiveram que assinar o Tratado de Versalhes, considerado humilhante por aqueles que não se conformavam com derrota na Grande Guerra. Foram nacionalistas que forjaram o mito de que a Alemanha não fora derrotada, mas sim traída, “apunhalada pelas costas pelos judeus e pelos comunistas.” Nada mais falso, pois a derrota alemã era irreversível. 

Sob o impacto da Revolução Russa, o avanço da extrema-esquerda era notório. Para freá-lo, o governo controlado pelos sociais-democratas, em conluio com grupos conservadores e de extrema-direita não vacilou em apoiar a repressão massiva aos movimentos revolucionários. O Estado Livre de Bremen foi desbaratado, o mesmo ocorreu com a República Bávara dos Conselhos. Diversos líderes foram assassinados: Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht, Hugo Hasse, Kurt Eisner e muitos outros. Um governo controlado por uma esquerda moderada reprimiu a extrema-esquerda. Abriu-se um fosso que inviabilizou alianças futuras.                                 No começo de 1919 foram realizadas as eleições para a formação de uma Assembleia Nacional Constituinte. O recém-fundado Partido Comunista Alemão não participou, contudo, no pleito a participação foi expressiva. As mulheres, os soldados e os jovens com vinte anos completos obtiveram o direito de voto. Os sociais-democratas obtiveram o maior número de cadeiras, vindo em seguida os liberais, populistas e nacionalistas conservadores. Devido às agitações que ocorriam em Berlim, os constituintes reuniram-se em Weimar, onde redigiram, aprovaram e promulgaram aquela que ficou conhecida como Constituição de Weimar.  República, parlamentarismo, divisão dos poderes, amplas liberdades democráticas, voto feminino e a garantia de diversos direitos sociais. Foi uma constituição avançada para a época.

“A República de Weimar nascera, portanto. Provinha de uma guerra que tivera os seus beneficiários, seus incansáveis defensores ainda vivos. Provinha de uma revolução esmagada. De um retorno à ordem fundada numa aliança entre as antigas camadas sociais influentes sobre Guilherme II, os quadros do exército imperial e os dirigentes do Partido Social –Democrata. Tendo em vista seu nascimento, dificilmente poderia escapar de ser tragada pelas forças de direita.”(RICHARD, Lionel. A República de Weimar: 1919-1933. São Paulo: Companhia das Letras, 1988, p. 55)

De 1920 até fins de 1924, a Alemanha foi sacudida por sucessivas crises econômicas e financeiras, o que agravava os problemas sociais e alimentava a crise política. Os inimigos do novo regime bombardeavam a opinião pública atacando as instituições republicanas, culpando os novos dirigentes, chamados depreciativamente de “traidores de novembro.”  Nesse contexto,  ocorreu o fracassado “Putsch da Cervejaria  de Munique”, que colocou em cena um personagem obscuro, que mais tarde iria assombrar o mundo: Adolfo Hitler líder do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. O objetivo dos rebeldes era tomar o poder em Munique e marchar em direção à Berlim. Não interessava às grandes potências, especialmente aos Estados Unidos e Grã-Bretanha que a Alemanha sucumbisse no caos econômico e social, daí o Plano Dawes, que possibilitou saneamento financeiro, crescimento da economia e estabilidade política. De 1924 até a Crise de 1929, os radicais de direita tiveram desempenhos pífios nas eleições. Nas eleições parlamentares de 1928, o Partido Nazista elegeu apenas 12 deputados.

A Crise de 1929, uma crise norte-americana tornou-se mundial atingindo todo o mundo capitalista, a Alemanha muito dependente dos Estados Unidos foi atingida em cheio. Multiplicaram-se as falências, disparou o desemprego, abriram-se as portas para todo o tipo de radicalismos. O até então obscuro Partido Nazista, obteve êxitos eleitorais notáveis. É importante destacar que Hitler chegou ao poder pela via eleitoral, formando um governo de coalizão. Como isso foi possível? A crise econômica e social, o medo do comunismo, o apoio da classe média, dos pequenos proprietários rurais, dos empresários e banqueiros, de trabalhadores menos politizados da propaganda bem elaborada e do carisma do führer. Para parcela da sociedade alemã a ascensão do nazismo representou a salvação do capitalismo e dos valores tradicionais germânicos. 

No poder em poucos meses os nazistas foram instaurando um Estado totalitário, para isso tiveram amplos apoios. Nos altos escalões das Forças Armadas, sem pendores democráticos viram no novo regime uma nova redenção nacionalista, no Poder Judiciário – controlado pela direita –  que com raras exceções conspurcou a Constituição de Weimar, das associações médicas que abraçaram entusiasticamente sua política de eugenia, das  Universidades onde poucos ousaram se opor;  das Igrejas  que fizeram vistas grossas às atrocidades dos truculentos “Camisas Pardas”; do grande capital (Hitler não mexeu na propriedade privada) que vibrou com o desmantelamento do movimento operário e extinção dos partidos progressistas, dos preconceituosos de todos os quilates que viram a oportunidade de exteriorizarem seus rancores, especialmente em relação aos judeus, pela banalização da violência e pelo desprezo à cultura.  A democracia alemã foi solapada por instituições e pessoas que legalmente tinham o dever de defendê-la.  

Não precisa ser historiador para saber que o passado nos mostra que os retrocessos ocorrerem nas mais diversas esferas. Na Alemanha poucos acreditavam que um regime como o nazista seria possível. Muitos achavam Hitler uma figura patética, limitado intelectualmente e sem condições de estarem enganados. Por isso continua válida a advertência do poeta alemão Bertolt Brecht que viveu esses sombrios:

“Como o ladrão esperto

que de noite espia

com dificuldade

se tem polícia por perto,

assim deveria

mover-se aquele que busca a verdade.

E deveria como algo roubado, 

em perigo,

trazer com cuidado

a verdade consigo.”

(KONDER, Leandro. A poesia de Brecht e a história. Texto disponível: www.iea.usp.br/artigos).

Não devemos desprezar os sinais. O ovo da serpente pode estar sendo chocado muito próximo de nós.

Renato Mocellin
Renato Mocellin
Mestre em Educação pela UFPR, formado em Direito, História e Estudos Sociais na UFPR. Especialista em História da arte na PUC-PR. Autor de várias coleções de História.Lecionou na Universidade Positivo. É professor do Curso e Colégio Positivo desde 1980. Na televisão integra a equipe do Programa Eureka e na Rádio é comentarista do Programa Light News da Transamérica de Curitiba. É membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná. Autor de obras sobre História do Paraná.