Fundador do RenovaBR, uma escola de formação de novos políticos para o Brasil, Eduardo Mufarej construiu sua carreira empresarial no mercado financeiro e na área da educação. Foi executivo e fez parte do conselho de administração de grandes companhias brasileiras como Tarpon Investimentos, Arezzo, Ômega Energia, BRF e Somos Educação.Em outubro de 2017, fundou o RenovaBR, iniciativa que seleciona e capacita novas lideranças para a política brasileira.  Eduardo também é co-fundador da Alicerce Educação, presidente do Conselho da Confederação Brasileira de Rugby e membro dos conselhos da Tembici e da Escola de Negócios da Universidade de Yale.

Eduardo Mufarej: primeira escola de formação para políticos do Brasil aposta na educação para abandonar velhas práticas e revolucionar jeito de fazer política no país 

“A questão mais fundamental é que essas pessoas que estão dispostas ou que já estão na política ou que estão querendo entrar na política estejam comprometidas com formas de atuação distintas das atuais, que enxerguem a política como uma missão, não como um projeto de poder pessoal.”

 A primeira escola destinada à formação de novos políticos para o Brasil inicia 2020 com cerca de mil alunos graduados para concorrer aos cargos destinados às eleições deste ano. 

Após a seletiva de mais de 31 mil inscritos para o programa do Renova Brasil, em 2019, o instituto abriu turma extra já no início de 2020 para novos alunos.

Em um país conhecido pelo pouco envolvimento com a política, salta aos olhos cidadãos de 400 cidades brasileiras se interessarem a entrar para a vida pública e atuar de uma nova forma.

Mas afinal de contas, é possível haver uma verdadeira renovação política? Qual a influência da formação de novas lideranças para a democracia do país? 

Quem vai esclarecer estas questões é um homem com uma trajetória de sucesso nos mercados financeiro e educacional. Ele que é do conselho administrativo de grandes empresas do país e acredita em uma nova maneira de fazer política.

Fundador do Renova Brasil, em 2017, ele coordenou a preparação de 117 candidatos para as eleições de 2018, sendo que 17 foram eleitos para assembleias legislativas, câmara e senado. Para as eleições de 2020 espera um resultado ainda mais expressivo. O Elo da Democracia entrevista hoje Eduardo Mufarej.

Allan Menengoti – O Renova é um projeto que fala tanto de política quanto de educação. Qual a relação entre esses dois pilares? E a democracia está inserida entre eles?

Eduardo Mufarej Bom, Allan, antes de mais nada, obrigado pelo convite. É um prazer conversar aqui com você. Eu acho que as duas coisas estão muito interligadas. Na realidade é que a gente como sociedade e como indivíduos, mais importante, a gente se prepara para todo tipo de atividade que a gente venha exercer: um advogado, um médico, um administrador, um economista, um operário. Quer dizer, todo mundo foi preparado e qualificado para exercer aquela função. E a gente não viu isso acontecer dentro da política. A realidade é que durante muitos anos as pessoas chegaram nos lugares, nos postos políticos, e elas aprendiam conforme aqueles hábitos, conforme aquelas formas de atuação. E na nossa visão era muito importante conduzir um programa de qualificação para que as pessoas pudessem chegar mais preparadas e entender que a formação é um processo constante e que a gente quer ter novas práticas. Se a gente quer executar uma boa política, a gente precisa fazer com que essas pessoas passem por um processo de aculturamento e formação diferente do que foi feito até agora.

Allan Menengoti  – Tem sido fácil encontrar essas novas lideranças, por exemplo? Como que é o processo?

Eduardo Mufarej –  Bom, o ano de 2017 quando o Renova foi criado, o que nós fizemos foi um chamamento. Nós convocamos a sociedade e perguntamos à ela quais eram aquelas pessoas que estavam dispostas a entrar na política e tentar fazer a política do jeito certo e que enxergam a política como uma missão e não como um negócio. Felizmente a gente enxergou que tinha um movimento de efervescência, que tinha uma parte da sociedade civil brasileira que estava disposta a entrar na política e, enfim, tentar trazer a sua contribuição e fazer a diferença para o país. Na nossa primeira rodada, na primeira safra do Renova, foram 4 mil inscritos no processo seletivo. Então a gente teve um contingente grande para escolher. Depois dos resultados da eleição do ano de 2018, nós tivemos um resultado, ao meu ver, ainda maior. Foram 31.359 inscritos dentro do processo seletivo do ano de 2019, ou seja, o que a gente viu aqui tem um incentivo, um aumento da propensão da participação da sociedades civil na política.

Allan Menengoti  –  Para um país que dizem que não se interessa por política, esse número é bem expressivo, não é?

Eduardo Mufarej – É! Eu acho que mostra uma reversão de tendência. De fato, é verdade, a sociedade brasileira se omitiu do processo de participação política nos últimos 30 anos. A gente se acostumou com oligarquias políticas, a gente se acostumou com um baixíssimo grau de participação e a sociedade lidou como se o problema não fosse dela. E, na realidade, o problema só foi se agravando e chegou um determinado momento em que a sociedade civil entendeu que era importante que ela tomasse rédeas dessa situação.

Allan Menengoti  – Qual é a situação mais problemática que o Renova tem enfrentado no Brasil hoje?

Eduardo Mufarej Eu acho que a gente, de uma certa forma, a dificuldade que enfrentamos é a dificuldade que a política inteira enfrenta, que é a estigmatização, a gente achar que a política não presta, que a política só traz problema, que ela não consegue trazer solução. E ao meu ver, eu acho que a gente começa a construir uma realidade diferente a partir de momentos como esse e iniciativas como o Renova para que a sociedade brasileira possa voltar a acreditar na política. A realidade é que durante muitos anos ficamos sem referências, pelo menos sem boas referências. E, ao meu ver, é muito importante que esse processo continue crescendo, que ele continue avançando e que a gente possa estabelecer novos referenciais de boa política para o nosso país, porque só através da política a gente vai conseguir resolver uma parte importante dos nossos problemas.

Allan Menengoti  –  Então esse movimento, de certa forma, muda um paradigma da democracia no Brasil. Que tipo de democracia que o Renova Brasil está tentando criar com essa escola de formação política?

Eduardo Mufarej O que a gente está tentando produzir, Allan, é fazer com que o acesso a política não seja uma coisa para poucos privilegiados. Historicamente, para você entrar na política você precisava ir através de um partido político ou da mão de um dirigente partidário, aquela pessoa que ia te trazer para dentro da estrutura, e você, a partir daí, se constituía quase que dentro de uma relação incestuosa, uma relação de conflitos de interesses, onde eventualmente o caminho não é um caminho meritocrático, não é um caminho objetivo, é um caminho normalmente mais…

Allan Menengoti  –  Sinuoso, meio problemático, talvez?

Eduardo Mufarej É, mais problemático. O que a gente se propôs a fazer é transformar o acesso a política, o caminho de acesso a política, em algo mais claro, mais transparente, mais objetivo. Então, ao nosso ver, a nossa principal contribuição para a democracia brasileira, nesse momento, é essa. É fazer com que o cidadão comum, aquela pessoa que quer participar da política, que tem interesse, que tem vontade de, eventualmente, um dia se candidatar, que ela possa procurar o Renova para se qualificar, se preparar, e que isso lhe dê melhores condições de participar do processo político.

Allan Menengoti  – Interessante os números que você trouxe, olha: nas eleições de 2018 foram 117 candidaturas de lideranças formadas pelo Renova. Dessas, 17 foram eleitas. Que características esses novos líderes precisam ter para um projeto novo de democracia para o Brasil?

Eduardo Mufarej Primeiro eu acho que ter muito claro a sua missão. Se a sua missão é transformar a realidade do país e vê na política como a principal finalidade desse seu processo, de transformar essa realidade, esse é o primeiro pré-requisito. O segundo é entender que o caminho é difícil, o acesso a política, você entrar na política não é fácil. A gente tem essa falsa impressão de que o político trabalha pouco, de que ele não faz nada, e não é verdade, as pessoas, em grande parte, trabalham. A questão é que o sistema foi, de uma certa forma, contaminado por práticas que são absolutamente condenáveis. Mas eu acho que elas têm que entender que é uma ladeira, uma ladeira com uma subida difícil e o importante é que ele tenha resiliência, que ele tenha competência e foco para poder chegar ao seu objetivo. Terceiro, eu acho que é uma questão também de história de vida. Se você nunca teve uma participação cívica, você nunca se incomodou com a situação das coisas, e de repente você resolve ser um candidato? É muito difícil você ter sucesso. Mas se você é uma pessoa que tem participação, que a sociedade vê como uma pessoa engajada, uma pessoa que, enfim, tem esse ímpeto de transformar, eu acho que você está muito à frente daqueles que não tem. E, por último, o espírito de realização que, no final, a política é para gente realizadora, gente que quer fazer a diferença.

Allan Menengoti  –  Você fala muito do perfil empreendedor, isso muda em quê na política, uma pessoa com esse espírito?    

Eduardo Mufarej Porque eu acho que a pessoa que está abdicando da sua carreira no setor empresarial ou no setor público para se dedicar a uma carreira política, então o que ele está fazendo é empreendendo. Então, ele tem que ter esse espírito empreendedor. Empreender no Brasil é dificílimo e empreender na política no Brasil é difícil, porque você tem uma série de dificuldades. Então a nossa ideia é apoiar esses empreendedores cívicos, as pessoas que estão a fim de fazer a política do jeito certo.

Allan Menengoti  – Depois que essas lideranças chegam no governo, elas precisam assumir algum tipo de compromisso com o instituto?

Eduardo Mufarej Não, elas não tem que assumir nenhum tipo de compromisso relativo a nenhum tipo de pauta. Se você observar, inclusive, como eles se comportam dentro de votação e tal, há uma dispersão muito grande. O nosso objetivo não é apoiar um partido político ou uma ideologia, o nosso objetivo é apoiar as pessoas, as pessoas de bem desse país que estão dispostas a entrar na política e, enfim, transformar a realidade do nosso país através da política. Os compromissos que nós temos perante essas pessoas são de componente, digamos, de compromisso e transparência. Então o que a gente pede é que cumpra o mandato, dado que são todos mandatários de primeiro ciclo. Em segundo lugar, que as pessoas cumpram um papel de transparência e de responsabilidade com o gasto público. Então, sabe, fazer mais com menos é importante. E, e em terceiro lugar, que eles prestem contas com seu eleitor do ponto de vista de votações e como ele se comporta. E em quarto, algo que foi produzido pelas próprias lideranças do Renova, que eles sejam defensores do aprimoramentos no modelo político. Isso passa por uma revisão do sistema, a adoção do sistema distrital misto. Então são esses os compromissos que eles estabeleceram, enquanto grupo, e perante a sociedade.

Allan Menengoti  – Quando eles chegam lá em Brasília, como os partidos da velha guarda ou antigos políticos estão encarando esse novo perfil de liderança que o Renova estimula? Como eles estão recebendo essas novas lideranças?

Eduardo Mufarej – Eu acho que de uma certa forma eles receberam bem. Todos os partidos têm uma necessidade de renovação de quadros. Essa é uma realidade da política atual. De uma certa forma a gente tem vivido, acho que nos últimos 20 anos a gente teve pouca renovação de quadros, a política ficou cansada, os políticos brasileiros envelheceram muito. Então, na nossa visão, grande parte dos partidos recebeu muito bem. Porque, na verdade, o Renova está cumprindo um papel que as fundações partidárias também deveriam cumprir com mais dedicação. Algumas o fazem, mas eu diria que isso é a minoria, que é de formação de quadros e lideranças. Então, o que o Renova está fazendo, em grande parte, é preparar futuras lideranças que poderão ser absorvidas por distintos partidos, conforme as suas próprias ideologias.

Allan Menengoti  – O Brasil e outros países vivem uma certa polarização, discurso de ódio, fragmentação ideológica, o que, segundo especialistas, é muito prejudicial para a democracia. Como você vê essa polarização que a gente vive hoje no Brasil?

Eduardo Mufarej – Eu acho que depois da gente ter vivido quase 15 anos de hegemonia de um grupo político, você tem agora a entrada de um novo grupo político, e, eu acho que, assim, o que todos nós gostaríamos de ver seria um pacto pelo futuro, uma sensação de maior altivez. Mas o que a gente sente é que tem um certo revanchismo em relação ao passado e eu acho que esse revanchismo não nos ajuda, eu acho que o Brasil tem que olhar para frente. A gente tem tido uma performance econômica muito aquém do que a sociedade brasileira espera, os níveis de desemprego continuam altos, tem uma expectativa grande em relação a redução de criminalidade, entre outras coisas. Então eu acho que a gente tem que endereçar essas questões, essas questões são as mais importantes, o resto eu acho que é meio “cortina de fumaça”. É  importante, mas não é tão relevante. Por outro lado, você vê, o Brasil é uma democracia pulsante, a própria relação entre o executivo e o congresso e o legislativo é uma relação que tem determinados pontos de convergência, tem pontos de divergência, então, assim, isso mostra que a democracia o Brasil ela está muito viva e que sempre você vai ter esses sistemas de contraponto, o que, às vezes, faz com que os processos sejam mais lentos, mas, ao mesmo tempo, é o que está legitimado: pelo voto, pela urna, no final do dia. Então, obviamente, o Presidente da República teve uma votação expressiva e os congressistas também tiveram suas votações. E o que eles tem que fazer agora é essa estrutura de contrapontos para que possam constituir os seus processos.

Allan Menengoti  – Mas essa questão da polarização, por exemplo, aparece no curso de formação de vocês?  Como os professores lidam com essa questão, por exemplo? Porque eu penso que, esse novo perfil de pessoas da vida política, precisa também apresentar uma nova mudança de negociação na política, especialmente para aprovar projetos tão importantes para o Brasil.  

Eduardo Mufarej Sem dúvidas. O Brasil tem projetos importantes que a gente precisa viabilizar para os próximos anos e todos entendemos que a constituição desses projetos não serão simples, porque você tem que mexer com direitos, com estruturas que vão ter que ser, de uma certa forma, revisitadas. Eu acho que a grande questão é que os políticos eleitos precisam entender que, uma vez eleitos, eles têm que negociar com seus pares para viabilizar os seus caminhos e que não basta mais você ficar nas mídias sociais ou fazendo um trabalho só com a sua base de eleitores e ter um trabalho de convencimento para que você possa ter protagonismo e relevância dentro das pautas que você está propondo. Ao meu ver, o congressista que tem profundidade, profundidade técnica,  tende a cumprir um bom papel. Ele tende a fazer um bom resultado, porque, no final do dia, esse trabalho com competência, com capacidade, ele tende a trazer benefícios. Você tem um congresso hoje muito fragmentado, onde a base de congressistas que, de fato, faz um trabalho de profundidade dentro de pautas específicas é muito pequeno. Então, existe uma oportunidade muito grande de você, enfim, ganhar relevância a partir de competência técnica. E eu aposo bastante nisso, quando maior a sua competência técnica, os congressistas respeitam, eles não desqualificam quem entende muito de matemática tributária ou de matemática empresarial. Isso tende a ser um ponto bastante respeitado. Então, quem está disposto a trabalhar duro lá no congresso ganha relevância

Allan Menengoti  – Além da formação dessas novas lideranças comprometidas em tirar do papel iniciativas que melhoram o país,  é necessário também formar um novo perfil de eleitor? Um eleitor mais consciente. Como formar um cidadão mais atuante na política?

Eduardo Mufarej –  Essa é uma boa pergunta, porque, de uma certa forma, a gente também colheu o sistema político que foi plantado pelo eleitoral, o eleitor não pode se colocar como vítima dessa situação porque a política ficou ruim, em parte, porque votamos muito mal, não fizemos a nossa lição de casa, não incentivamos a formação de novos quadros, não incentivamos as melhores cabeças da sociedade à se juntarem a política. Então, ao meu ver, eu acho que esse é um ponto muito importante para a gente transicionar. A gente precisa votar melhor, a gente precisa entender o papel de cada um dos poderes. As pessoas, em grande parte, tem uma confusão sobre o papel de um vereador, de um deputado estadual, de um deputado federal. É muito importante que a gente entenda as responsabilidades dos poderes até para poder cobrar.  Sem isso fica muito difícil. Não adianta você cobrar o prefeito de itens de que são responsabilidade estadual ou que são de responsabilidade federal. A gente tem que entender. Segurança pública, a prefeitura tem um papel? Tem, mas é um papel reduzido em relação ao governo. A segurança pública é uma responsabilidade do governo do estado, ou seja, é muito importante que isso fique claro para as pessoas e que elas compreendam que isso é bastante relevante. Se a gente não entender o papel de cada um, fica muito difícil cobrar.

Allan Menengoti  –  Mas para isso não precisa haver uma educação sobre a democracia? Por onde deveria começar? Pela escola? Família?

Eduardo Mufarej – Eu acho que começar pela escola. A gente perdeu. Seria natural a gente ter uma matéria ou dentro de uma outra disciplina e se chamar “estrutura de governo”. A gente não conhece estrutura de governo, a gente não conhece as responsabilidades. Então fica aí muito difícil para as pessoas também. O sistema já é complexo, isso não ajuda, mas eu acho que a gente tem que trazer esse componente de formação de instrução a largada para que as pessoas possam cumprir o melhor papel.

Allan Menengoti   O que é ser novo na política? É possível  mudar com quem já está aí?

Eduardo Mufarej – Eu acho que você tem pessoas boas dentro da política. A  questão não é somente de caras novas, a questão são das práticas. Eu acho que o que a sociedade demanda hoje são novas práticas. Então, como é que a gente realiza a boa política a partir de novas práticas? E as novas práticas podem ser aplicadas por políticos novos ou por políticos mais veteranos. Isso não é tão importante.  Ao meu ver, eu acho que a questão mais fundamental é que essas pessoas que estão dispostas ou que já estão na política ou que estão querendo entrar na política estejam comprometidas com formas de atuação distintas das atuais, que enxerguem a política como uma missão, não como um projeto de poder pessoal, é isso que a gente tem que procurar.

Allan Menengoti  – Como você avalia a educação nas escolas, principalmente as públicas? Elas tem professores capacitados para ensinar democracia aos alunos?

Eduardo Mufarej Eu acho difícil porque essa não é uma disciplina que está estruturada para que esse lecionamento possa acontecer.

Allan Menengoti  – Mas você acha que seria importante ter um projeto disso?

Eduardo Mufarej Compreender “governo”. Eu acho que democracia é parte, pois você tem sistemas de governo. Mas entender governo, como funciona o governo, qual a responsabilidades de cada um dos poderes, como é que eles se equilibram e como eles se desequilibram, é essencial. Porque senão fica muito difícil das pessoas irem para a urna e entenderem qual é o papel. Então, eu estou indo votar, essa é a minha responsabilidade, perfeito. Mas eu estou elegendo aqui um representante e o que eu tenho que cobrá-lo? O que é razoável? O que não é razoável? Porque eu vejo muitas vezes, como a gente abordou aqui anteriormente, pessoas esperando de um governador que ele seja o cara que faz o trabalho de zeladoria, que é o trabalho do prefeito. Quer dizer, tem uma confusão grande em relação às próprias expectativas: o que faz um vereador? O que faz a Assembleia Estadual? O que faz o Congresso Federal? É importante compreender isso.

Allan Menengoti  – Eu vi uma entrevista sua  dizendo que há casos em que um candidato se elege e, às vezes, leva um ano para saber o que ele precisa fazer!

Eduardo Mufarej É. Leva muito. A gente fez o primeiro programa de formação para deputados eleitos, botamos em sala de aula todos os líderes eleitor pelo Renova. Além disso abrirmos outras 40 vagas, Botamos todo mundo em sala de aula e foram 40 horas de formação. É incrível, esses deputados de primeiro mandato, em sua grande parte, não tinha uma grande ideia de qual era o papel deles, não tinha plano estratégico de mandato que eles gostariam de cumprir e o que eles deveriam fazer. Ou seja, eu acho que falta o Brasil ter um, onde eu quero chegar? Então, simplesmente ao fazer essa pergunta para grande parte dos eleitos, que dizer, qual é a sua medida de sucesso no seu mandato? Não pode ser só você se reeleger. O que vai fazer com que você esteja, de fato, feliz com o que você entregou e com o que você cumpriu? E aí você consegue entender aquilo. Porque teve muita gente que não tinha feito essa lição de casa e acabou fazendo. E isso certamente ajuda na ordenação de equipe, de objetivos estratégicos dentro do mandato.

Allan Menengoti  – Dá para você fazer uma avaliação desse primeiro passo do governo federal em termos de democracia? Tem caminhado para uma democracia mais forte? Como que você vê? 

Eduardo Mufarej Olha, ao meu ver, acho que a democracia brasileira vem passando por um processo de destruturação nos últimos muitos anos. A gente teve diversas trocas de governos, teve protagonismos de poderes, teve denúncias de corrupção tanto no executivo quanto no legislativo, então, nada disso colabora com o fortalecimento da democracia brasileira. Então, eu acho que tudo isso atrapalhou. Se a gente não tivesse tido todos esses indícios, todas essas comprovações de corrupção, eu acho que a gente estaria em um lugar mais saudável. E isso fez com que a população, de uma certa forma, desqualificasse a política, falasse “político não presta. Político é tudo igual”. Então, minha visão da nova presidência da república, o que eu estou vendo é uma democracia muito atuante, porque o que nós estamos percebendo é, muitas vezes, um cabo de guerra entre o poder legislativo e o poder executivo e isso mostra que a democracia está muito viva, ela estaria, ao meu ver, muito morta, se agente estivesse num ambiente de absoluta estabilidade, aonde o Congresso simplesmente segue as orientações do executivo. E eu acho que esse sistema de contrapontos ele é muito importante. Então eu estou vendo a democracia brasileira muito viva e eu acho que isso tem bastante valor.

Allan Menengoti  – E para a democracia estar forte é muito necessário do diálogo. Onde esse diálogo deve acontecer? Por exemplo, as mídias sociais, você acha que elas ajudam ou atrapalham em relação a política?

Eduardo Mufarej – Eu acho que elas ajudam e atrapalham em determinados momentos, porque a mídia social traz a informação em tempo real e você desintermediou muito da informação, então isso é muito bom, de um lado. Por outro lado, ela faz com que, em determinados momentos, falar para fora seja mais importante do que falar para dentro e aí faz você perder consistência, porque você está muito preocupado no que o de fora está dizendo, quando na verdade o problema precisa ser resolvido numa mesa ou numa discussão  entre pessoas ou entre um grupo de pessoas. Então tem determinados momentos que eu acho que ela traz um grande benefício e outros momentos que eu acho que ela não está ajudando a produzir isso.  Eu acho que tem, de uma certa forma, um excesso de informação em determinados momentos que às vezes atrapalha um pouco desse processo de tomada de decisão. As vezes, há um excesso de exposição de determinados políticos e faz com que ele se coloque num lugar diferente, não só no executivo e legislativo, mas no próprio judiciário. Então, é uma questão de excesso de protagonismo, quando na verdade o que a gente precisa fazer é o trabalho acontecer. Então, eu vejo isso como pontos importantes para a gente evoluir. Mas eu estou vendo a nossa democracia forte, eu acho que ela está avançando, esse sistema de contrapontos funciona e eu espero que isso continue com mais força nos próximos anos e estou bastante feliz com esse processo de renovação de quadros e acho que de práticas, principalmente. Eu acho que com isso, a democracia brasileira vai ter um grande valor no futuro.

Allan Menengoti  – Tem alguma palavra para definir a democracia, que você usaria, que passe pela sua cabeça? Que seja uma questão forte para a nossa democracia? 

Eduardo Mufarej Eu acho que a palavra “acesso”.  Hoje a gente entende que a democracia se dá somente através do voto, mas a democracia não se dá apenas através do voto, ela se dá através da participação,  através da liberdade de manifestação, entre tantas outras coisas. Então a gente precisa transformar o acesso a democracia, transformar a democracia ou o processo político em algo mais acessível, mais democrático. E para mim eu acho que esse é o principal ponto para a gente continuar investindo e comentando para que mais pessoas tenham interesse e a inclinação de participar do processo decisório e do processo político do nosso país.

Allan Menengoti  – Bom, a gente iniciou perguntando sobre alguns conceitos. Para finalizar, olhando para a escola de formação política do Renova, você diria para o cidadão que ele pode ter esperança? 

Eduardo Mufarej – Sem dúvida. Eu tenho muita esperança depois de ver tanta gente participando do processo seletivo, querendo entrar na política, mobilizado pela transformação, eu tenho bastante esperança. Eu acho que a gente pode esperar por dias melhores.

Allan Menengoti  – Para finalizar. Qual a relevância que você vê num instituto como o nosso que pretende abordar a democracia, debater esse tema? Que relevância pode ter um instituto como esse?

Eduardo Mufarej – Eu acho que no momento em que você tem uma discussão sobre todas as democracia liberais no mundo, se elas estão em cheque, para onde elas estão indo e são movimentos que não são circunscritos ao Brasil, essa é uma realidade que estamos vendo aí em diversas geografia, eu acho muito valioso, porque esse debate tem que ser trazido para a mesa. E eu acho que pensar em como a gente fortalece democracias como, por exemplo, mecanismos de financiamentos, que é um ponto fundamental para a gente tratar. Como é que nós estamos caminhando para um mecanismo de financiamento público com zero de transparência? Isso não pode continuar dessa forma. Então, eu acho que ter mais gente debatendo isso e fomentando esse tipo de discussão é essencial. Então eu, obviamente, fico feliz por isso, por você estar puxando essa agenda aí.