“Essa menina, essa mulher, essa senhora Em quem esbarro a toda hora no espelho casual 

É feita de sombra e tanta luz De tanta lama e tanta cruz Que acha tudo, natural” 

(‘Essa Mulher’, canção que fez muito sucesso na voz de Elis Regina, 

composição de Joyce Moreno e Ana Terra) 

Nascida na década de 20, há quase um século. Tubi era uma espécie de “professora-autodidata”, uma dona de casa intelectualizada e artista nas horas vagas, encantando todos a sua volta com seus conhecimentos práticos sobre a Vida. Sempre vaidosa, muito bem articulada e dona de um sotaque ímpar. Ela não era letra de Vinicius, muito menos de Jobim, mas era carioca. Fillha “ilegítima” de uma moça valente com um jurista sonhador. Ela, empregada doméstica. Ele, jovem aristocrata. Tubi era fruto da diferença e carregava as marcas do preconceito social desde muito cedo, a começar pela certidão de nascimento. Mas Tubi não esmoreceu por isso, criou seu próprio mundo. Tubi foi mais além. E Wilson, um rapaz do interior do Paraná que havia recém voltado do combate da segunda guerra, conseguiu enxergar tudo de mais lindo nos olhos dela. 

Conterrânea de Tubi, viveu no morro e pegava pesado no batente em plena década de 50, transição para 60, justamente na época de nascimento da bossa nova. Adélia, mulher negra, trabalhava em casa de família da zona nobre do Rio para sustentar sua irmã caçula, Ivone, e a filha Conceição, de quem Adélia, receosa, escondeu por muito tempo a verdadeira paternidade. Adélia era maltratada pela patroa e engolia o choro calada. Em seu tempo de folga, Adélia se deixava levar pela capoeira com amor, ao lado do seu companheiro de vida, o músico Capitão. Adélia, apesar do peso, inspirava leveza. 

Ao chegar no Rio, vinda de São Paulo, a corajosa Maria Luíza esperava encontrar o marido para juntos abrirem um restaurante para a elite carioca. Pouco não foi o espanto (surpresa ou susto) quando descobriu que o sujeito tinha amante e havia partido, levando todas as finanças do casal, que na verdade eram um empréstimo do pai de Malu. E agora, José? – ou melhor: “E agora, Maria?”… muito bem, Malu se virou e, embora não sem dor, não voltou para Sampa, deixando seu filho pequeno aos cuidados dos avós. Abandonada e sem tostão algum, a moça encontrou na amizade de outra mulher motivos de sobra para se reerguer e perseverar. A vontade de queimar todos os pertences deixados pelo ex-marido, de início, foi forte, mas a empregada da vizinha de Malu, ninguém mais, ninguém menos do que Adélia a socorreu. Adélia deu ombro e colo à Malu e juntas as duas abriram um restaurante (não) muito melhor que isso: inauguraram um “BOSSA NOVA CLUB”. Malu teve esse insight depois de escutar Chico tocando em um banquinho com seu violão a la João Gilberto. Para Malu a canção de Chico tinha cheiro de mar. Malu se jogou ao mar – em todos os sentidos. 

O sonho de Lígia era ser cantora, lembrando muito Maysa Matarazzo, a melhor amiga de Malu tinha um talento vocal que transbordava e chamava a atenção daqueles que a ouviam, 

com exceção de seu marido que dotado de um ciúme doentio, espancava Ligia e a proibia de cantar, querendo restringir sua vida ao lar e aos afazeres de “primeira dama”. Augusto almejava se lançar na carreira política e ter uma “esposa perfeita” para ser aprovado perante a própria mãe, uma senhora extremamente conservadora e machista. Por tais comportamentos abusivos, perpetrados de mãe para filho, e pela prática de violência doméstica cometida em face de Lígia, Augusto acabou jogando seu casamento ladeira abaixo e Lígia se descobriu grávida. Nesse momento, chegou a vez de Malu, que já tinha sido consolada por Adelia, consolar Lígia. E em meio a essa corrente de sororidade, Lígia foi convidada pelas donas do clube de música a estrelar como cantora na inauguração do local. Ligia brilhou e revelou à amiga que fez um aborto. 

Recém chegada de Paris, casada com o irmão do marido de Lígia, Thereza era uma mulher sofisticada e super dona de si. Ela tinha um casamento liberal e levava uma vida ao estilo Simone de Beauvoir, se vangloriando disso constantemente, mas no jornal em que trabalhava ainda sofria com as piadas discriminatórias dos colegas, pois era a única mulher da redação e era obrigada a assinar suas colunas com um pseudônimo masculino. Apesar da imagem resiliente, Thereza trazia consigo uma ferida do passado muito grande: perdera um filho. E as vulnerabilidades da jornalista voltaram à tona quando ela descobriu que seu marido era o pai da filha de Adélia. Ele, jovem aristocrata. Ela, empregada doméstica. Qualquer história parecida com a história de Tubi, nesse caso, seria mera coincidência? 

Vejamos, Thereza começa com a letra “T”, Tubi também. Mas fora isso, o que uma teria em comum com a outra? Tal como mencionei no início Tubi não virou canção de Jobim ou Vinícius, mas igualmente a Thereza era carioca. Thereza que por sua vez sim, Thereza que era canção (“Tereza da Praia”), assim como Malu (“Samba de Maria Luiza”) e Ligia (“Ligia”)… todas canções do Tom, todas junto de Adélia – que assim como Tubi ainda não foi contemplada com canção. Todas unidas formando o quarteto fantástico de personagens da série “Coisa Mais Linda” da Netflix, que em breve estreia nova temporada. Mulheres que levantaram umas às outras e também encontraram homens companheiros que colaboraram com elas, apesar de qualquer intempérie no caminho ocasionada pelo machismo. 

Mas vocês hão de me perguntar: “E Tubi, onde ela se encaixa nessa trama?” E eu responderei que Tubi se encaixa perfeitamente na lembrança que tive ao assistir a primeira temporada da série. Eu enxerguei um pouco (ou “um muito”) da Tubi de carne e osso, minha querida avó, em cada uma das quatro personagens da série, enxerguei minhas amigas em todas elas, minhas alunas, minhas vizinhas e enxerguei a mim mesma também. Enxerguei todas nós, independentemente de estereótipos ou de temporalidade, enxerguei nossas lutas diárias. Lutas diárias pelo fim da intolerância, pelo fim da violência, por nossos direitos fundamentais de ir e vir ou de se expressar. Eu enxerguei, eu não apenas vi. Eu não vi Tubi, eu a enxerguei. E gostaria de saber se vocês em vez de simplesmente me desejarem “um feliz mês da mulher” conseguem enxergar o que escrevo? 

Assinado, EU. 

Carol Gaertner
Carol Gaertner
Carol Gaertner é escritora, mediadora judicial e advogada colaborativa, graduada pelo Centro Universitário Curitiba (UNICURITIBA), especialista em Direito Aplicado pela Escola da Magistratura do Paraná (EMAP) e em Direito de Família e Sucessões pela Academia Brasileira de Direito Constitucional (ABDConst).