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Alexandra Loras

Ex-consulesa da França em São Paulo, palestrante, executiva, comunicadora, mentora e consultora. Alexandra Loras transformou a narrativa de sua vida em uma missão. Há mais de 20 anos, ela atua na área de transformação pessoal e empresarial, com o objetivo de reequilibrar a diversidade étnico-racial de diversas organizações. O seu trabalho, ao lado de grandes líderes nacionais e internacionais, mostra que a conscientização sobre diversidade de gênero e de raça também está diretamente ligada à rentabilidade. Graduada com Mestrado em Gestão de Mídia pela renomada escola de Ciências Políticas da França (IEP Paris), Alexandra já reuniu mais de 20 mil pessoas, em todo mundo, em suas áreas de atuação. Os temas abordados por ela reverberam na mídia nacional, em todas as plataformas, provocando a reflexão e trazendo a discussão à sociedade. O impacto causado pelas palavras de Alexandra já foi sentido na revista Veja, na revista Vogue, no jornal Valor Econômico, na Folha de São Paulo e em grandes publicações segmentadas. Ela já participou de eventos de destaque, como o TEDxSãoPaulo, e de grandes organizações internacionais de mídia, como Google, Facebook, J.P. Morgan, Bloomberg, ONU Mulheres e Women’s Economic Empowerment Global Summit, em Dubai.

Nota: Essa entrevista foi gravada no final de 2019, antes do episódio da pandemia do coronavírus.

Alexandra Loras: A luta da ex-consulesa da França no Brasil por uma verdadeira Democracia Racial

“Para mim, existe no Brasil a melhor forma sutil de segregação e de apartheid cordial. 

O racismo é tão sofisticado na sua forma de existir que embranqueceram tudo. O sistema escolar brasileiro público é uma das coisas mais racista que eu vi no mundo.”

São muitas as áfricas dentro do nosso país. Do comercio à religião. Da culinária à cultura. O Instituto Allan Menengoti para a Democracia traz neste mês um questionamento importante: o Brasil vive uma democracia racial ou a miscigenação apenas nos colocou dentre os países mais racistas e preconceituosos no mundo?

Afinal de contas, cota é preconceito ou ela ajuda a diminuir diferenças? Qual a importância da representatividade negra na classe política, na sociedade?

O Elos da Democracia coloca hoje o público em uma posição desconfortável. Provocativa e questionadora, a palestrante, executiva e embaixadora da afro-educação, Alexandra Loras, desvenda a realidade racial no Brasil e mostra porque já impactou mais de 20 mil pessoas com a sua atuação, desde que chegou no Brasil como Consulesa da França. 

Apesar da Constituição Federal brasileira de 1988 garantir direitos aos Negros e prever a igualdade de raça e gênero, os avanços neste âmbito tem acontecido com base em muitas lutas de diversos movimentos e coletivos. Em 31 anos de constituição, quando observamos as posições de poder na sociedade, a população negra continua à margem. Não basta estar previsto em lei que racismo é crime inafiançável se nas sutilezas do dia a dia o preconceito seja mais forte que a proteção que a lei traz.

Mas é possível mudar isso? Ao final da entrevista existe a esperança de que a semente plantada gere uma profunda reflexão.

Allan Menengoti – Alexandra Loras, obrigado por me receber aqui na sua casa para a gente falar de um assunto tão importante. O seu protagonismo em relação a desigualdade racial no Brasil é importante para a democracia brasileira.

Alexandra Loras – Obrigada por me convidar a debater sobre esse assunto. Eu acho que estamos num momento muito especial, onde os brancos precisam entender sobre branquitude, sobre o fato de que se não questionarmos a branquitude, não vamos conseguir entender sobre a conseqüência sistêmica da branquitude, sendo o racismo. Hoje, o branco se considera como a normalidade e não percebe que, quando ele se considera como a normalidade, ele inferioriza tudo o que diferente. Então, claro que o branco de hoje não é responsável pelo que aconteceu no tempo da escravidão, como o alemão da minha geração ou da sua geração não é responsável pelo holocausto do Hitler,  mas somos todos responsáveis para resolver esse assunto. E obrigada por você se tornar anti-racista e levar esse tema, assim, dando luz para esse tema.

Allan Menengoti – Quando a gente fala de democracia racial, a gente parte do pressuposto que a gente superou o racismo e o preconceito. Alguns autores da década de 70, 80, usaram esse termo como se a gente já tivesse superado esse problema. Como é que você vê a democracia racial no Brasil na época que você chegou aqui no Brasil, como uma consulesa, até os dias de hoje?

Alexandra Loras – Hoje eu percebo que o Freire que difundiu, conseguiu criar no nosso imaginário nacional a questão da democracia racial, eu acho que ele era muito esperto e sofisticado na forma de orquestrar a maior mentira possível. Ele orquestrou o crime perfeito, vamos dizer. Para mim, a democracia não existe em nenhum país no mundo com democracia. Se for, talvez, a Suécia. Democracia quer dizer igualdade na forma de tratar os assuntos políticos, econômicos, sociais, etc. Eu, realmente, até ver 52% de mulheres, que é a porcentagem das mulheres nesse planeta, não posso considerar nenhuma suposta democracia sendo uma democracia.  Até ter 52% de mulheres no poder, não é uma democracia. Depois, chamar isso de democracia racial, onde estão os 54% de negros nessa democracia?

Allan Menengoti – Você se surpreendeu quando chegou no Brasil?

Alexandra Loras – Na verdade, me surpreendi porque tinha uma expectativa. Vocês têm um marketing lá fora sensacional: “o país da democracia racial, não existe racismo, está tudo resolvido, o país da miscigenação”. Sempre escutei no meu país que o mundo, quando ele estiver mestiço, não existiria mais racismo. Infelizmente os maiores países de miscigenação são os mais racistas. Então, esse raciocínio ele é fofinho no mundo dos Ursinhos Carinhosos, mas na realidade brasileira é um escândalo. Posso perceber também que esse conceito da democracia racial é interessante porque aqui as maiores são tratadas como minorias, até o próprio presidente fala que as leis tem que ser feita em função das maiorias, só que ele não percebe e nem sabe que as maiorias são as mulheres e os negros e as mulheres negras, por essa interseccionalidade. Agora, o homem branco é a minoria, então, infelizmente, ele tem um protagonismo que faz as pessoas acharem que ele é a maioria. E nós precisamos, realmente, mudar nossa forma de cocriar, de competir, porque o Brasil está só competindo entre brancos, só com 40% da população. Ele não está sendo muito competitivo, tirando a maioria, sem poder realmente ser um país extremamente estimulado pela forma criativa que o brasileiro tem. Vocês conseguiram sempre se virar depois do imperialismo, da colonização, da escravidão, da ditadura, do plano Collor. O brasileiro é muito criativo, ele sabe se virar, então eu acho que a partir do momento onde vocês vão ter as mesmas regras  do jogo econômico mundial, que nós temos europeus ou americanos, que é, por exemplo, entre 3 e 6% de juros, quando você quer empreender, por ano, no Brasil você tem entre 400 e 700% de juros por ano quando você quer empreender, que é a melhor de deixar o Brasil sendo percebido como um país do terceiro mundo. É um Brasil de primeiro mundo.

Allan Menengoti – Com potencial para isso?

Alexandra Loras – Já, nos números. O Brasil é a nona potência mundial. Sem contar o dinheiro da corrupção, já foi a sétima. Então, o Brasil já é um big player. É um dos países mais importante do mundo em termos de tamanho, é o quinto, e o quinto em termos de população, então o Brasil é um big player que se comunica através do futebol e do carnaval. Então parece que está tudo resolvido com toda essa alegria de viver;

Allan Menengoti – Mas por trás disso existe ainda o preconceito e o racismo. Cada país que pratica o racismo tem a sua característica. Existe uma característica ou um “racismo à brasileira” que não existe lá fora?

Alexandra Loras – Então, eu viajei por mais de 56 países, morei em 8 países e, com certeza, tem um “racismo à brasileira”.

Allan Menengoti – Como que é?

Alexandra Loras – Ah, poderia escrever uma enciclopédia.  Para mim, existe no Brasil a melhor forma sutil de segregação e de apartheid cordial. O racismo é tão sofisticado na sua forma de existir, eu não enxergo ele velado, as pessoas chamam ele de velado, eu discordo com isso, para mim ele é muito frontal. Só que como o negro nasce aqui e não tem poder econômico para viajar lá fora e se dar conta de como os negros são tratados em outros lugares, ele talvez absorva a condição dele como normal e ela é extremamente inferiorizante, ela é extremamente opressiva. A dominação sutil do branco no Brasil (…) para mim a colonização nunca parou, até mesmo na forma do brasileiro não celebrar as heranças africanas que ele tem.] Embranqueceram tudo: Machado de Assis, Iemanjá, embranqueceram tudo que podiam: o André Rebouças, o Teodoro Sampaio. E, hoje, se você olha o sistema escolar brasileiro público, é uma das coisas mais racista que eu vi no mundo, porque os livros didáticos só relatam o negro no papel do escravo, tendo algumas páginas e pronto, acabou.

Allan Menengoti – Você acha que uma criança negra, uma menina negra, um menino negro na sala de aula consegue se enxergar e consegue ver a importância que ele teve, por exemplo, na construção de um país como o Brasil, a importância na construção de um país como a França, por exemplo?

Alexandra Loras – Eu acho que esse é um dos maiores problemas do Brasil. É  não reconhecer aquele racismo estrutural que está extremamente enraizado em todas as camadas da sociedade, em todas, do desenho animado até a loja de brinquedo, passando pelos livros didáticos, livros infantis da escola, da biblioteca pública, Está em tudo essa falta de representatividade. Têm 114 milhões de negros no Brasil, o que é equivalente ao décimo primeiro país do mundo, então, seria um país do G20. E em termos econômicos, os negros consomem 1.7 trilhões de reais por ano, segundo a pesquisa da Locomotiva de 2018. É interessante, porque seria o 17º país do mundo, só com o afro-consumo. Então, como as empresas e as instituições preferem ser racistas que capitalistas porque não percebem o tamanho, esse elefante gigante na sala que eles tentam colocar para baixo do tapete como se a escravidão não houvesse tido algum erro, alguma coisa errada na história. É como “ah, acabou.” De novo a heroína é a princesa Isabel: “olha que fofinha, ela assinou a lei Áurea, então resolveu”. Não. Vejo diante de todas essas décadas uma forma de não deixar o negro poder votar. Depois de assinar a Lei Áurea o negro não poderia votar, não podia estudar, não podia aprender a ler e a escrever, não podia possuir terras. Então, o sistema, até hoje, foi feito para o negro permanecer embaixo da pirâmide, e de uma forma muito esperta. E, hoje, se olhamos, o Brasil é um dos primeiros países do mundo a ter tido cotas, não as cotas do negro, [mas] as cotas para o branco. Tinha a “cota do boi”, então tinha a cota para os filhos dos fazendeiros que tinham 50% das vagas nas universidades. Então, é interessante, porque quando é o filho do fazendeiro, branco, [então está] tudo bem, ninguém foi lá debater sobre isso. O que me incomoda é que teve tantos professores da USP me escrevendo, me agredindo diante o debate das cotas na USP, universidade federal que resistiu de forma ilegal durante vários anos, quando a lei das cotas já passou, ela resistiu e até hoje ela resiste, porque, na verdade, não existem cotas verdadeiras no Brasil, são sementinhas de cotas.

Allan Menengoti – Como que você vê essa questão das cotas raciais?

Alexandra Loras – Deveria ter 54% de cotas raciais na USP. Essas seriam cotas, 54% de cotas para negros e 52% de cotas, se você quiser, para mulheres e, vamos dizer, 80% de cotas para os pobres e depois tem a interseccionalidade. O que me interessa mesmo é realmente essa cota racial, que acho que podemos debater durante muito tempo, mas se não tivermos essas cotas, vamos demorar 500 anos para reequilibrar de forma orgânica. Tem pesquisas que falam de 180 anos, mas, por favor, já faze 132 anos que não tivemos cotas verdadeiras, correspondendo a porcentagem, cotas quer dizer porcentagem. Então, hoje, se olharmos os Estados Unidos eles tiveram resultados incríveis com as cotas e hoje não tem mais, não precisam mais ter cotas.

Allan Menengoti – Você acha que o Brasil pode chegar a esse ponto?

Alexandra Loras – Seria bom ter cotas durante 20 anos, talvez 10 anos, só para equilibrar, mas vamos acelerando porque não podemos continuar nessa forma absurda de não deixar os talentos das pessoas ter oportunidade. Porque o maior problema do Brasil é essas questões de oportunidade. E esse veneno que é a elite achar que o povo brasileiro é ignorante. Não é o povo brasileiro que é ignorante, [mas] é a elite brasileira que é muito ignorante. De todas as elites que eu freqüentei no mundo inteiro [a brasileira] é a mais ignorante: que não fala inglês, que sabe poucas coisas em termos de cultura global, mas ela adora achar que é o outro que é analfabeto funcional. Então, para mim, me incomoda muito esses raciocínios de achar porque é o que eu escuto mais nos recursos humanos do Brasil, e é a doença dos recursos humanos das empresas, é achar que o negro está despreparado, que não tem negros diplomados. Só que houve um aumento de 350% de negros nas universidades. Negros com mestrados e doutorados, que falam inglês têm milhões só que os RHs não querem enxergar.

Allan Menengoti – Você como uma ex-consulesa, no período em que estava consulesa, recebia pessoas da elite, pessoas estudadas. Você sofria algum tipo de preconceito, por exemplo, por ser uma negra?

Alexandra Loras – Eu sofro preconceito em cada esquina do Brasil, pode ser na elite, pode ser no shopping, pode ser em qualquer lugar. Por exemplo, na minha própria casa recebia 6 mil pessoas por ano e o protocolo francês faz questão de eu ficar na entrada para dar boas-vindas aos convidados do consulado. Claro que, várias vezes, pessoas da elite passavam na frente de mim achando que era uma empregada doméstica da residência consular. Igual, em vários momentos da minha vida, [quando] vou, por exemplo, palestrar para a Globo e vou sentar lá na primeira fila e uma pessoa da organização vem me ver e falar que eu preciso me sentar lá atrás. Eu falei “você está brincando?”. Ela fala “não, aqui está escrito reservado”. Então ela já assume que o espaço reservado não é para uma mulher negra. Então eu falo “se está reservado, eu sei ler”. E ela fala “sim, está reservado para os palestrantes”. Ela não consegue enxergar uma mulher negra como a palestrante do dia. Então, são coisas extremamente sutis pelas quais o branco não vai passar por essas micro-agressões, micro humilhações, que fazem parte do nosso dia a dia. Vão entrar na fila premium da Gol, no aeroporto, em cada vez vão ter assim (…) A última vez tinham dois homens brancos na frente de mim e que foram atendidos e quando chega o meu turno a mulher da bancada veio até a mim e falou “e aí?”, de forma muito autoritária, grosseira e tal. E eu falei “sou platinum”, [ela disse]: “me mostra”. Se eu fosse loira e com platinum…Você nunca pergunta para uma pessoa que tem platinum se ela é platinum, você trata ela super bem, depois quando ela chega na bancada ela vai te mostrar o cartão platinum. Mas, primeiro, tem toda a fila normal, que me olham como se estou furando a fila errada. Tem aquelas micro humilhações da mulher que está me falando que os privilégios platinum não são para uma mulher negra. Então são coisas pelas quais o branco não vai passar e, então, vai achar que está tudo resolvido e vai achar que o racismo está velado. Não está velado de jeito nenhum para uma pessoa negra. Quando eu escuto negros falando “ah, eu nunca sofri racismo”, eu fico “ok! Você desenvolveu proteções para tentar se convencer que você não sofria racismo, mas como criança negra você não sofreu de entrar em qualquer loja onde nunca achou um super herói negro ou uma boneca negra?” Não existe uma loja no Brasil, que seja em Salvador ou em Curitiba, que tenha um super herói negro, um protagonista negro para meninos. Tem uma duas bonecas negras de vez em quando, bem clarinha, com o cabelo alisado, mas não existem bonecas negras com cabelos crespos ou escura. Eu cresci com essa dor.

Allan Menengoti – Deixa eu perguntar uma coisa, a nossa Constituição Federal Brasileira ela traz muito a questão da igualdade, do começo ao fim a palavra igualdade é mencionada. A Revolução Francesa traz a questão da Liberdade, Fraternidade e Igualdade, mas se a gente for pra rua a gente vai ver que essa igualdade está muito longe de existir. Se a Lei não é o antídoto para o racismo, para o preconceito, qual seria o antídoto, em sua opinião?

Alexandra Loras – Temos que olhar: quem escreveu essas constituições? A elite branca, privilegiada, que acredita nesse conceito da igualdade. Vamos olhar, meu país, porque a Constituição Brasileira se baseou sobre a Constituição Francesa.  Meu país criou a Declaração dos Direitos Humanos, escrita em 1789 depois da Revolução feita não pelo povo, [mas] pelos burgueses que tinham ciúmes dos aristocratas, mas a história é contada de outra forma. A Declaração dos Direitos Humanos no meu país até hoje se chamada a Declaração de Déclaration des Droits de l’Homme, Declaração dos Direitos do Homem, até hoje. Então, já a base dos Direitos Humanos é podre. Então a igualdade, o que quer dizer essa igualdade? Porque essa declaração  foi escrita numa época onde as mulheres não tinham nenhum direito, nem de votar e onde tinha ainda escravidão. Então, a Declaração dos Direitos Humanos, essa igualdade é absurda, [é uma] igualdade entre homens brancos. Então, claro que o resto nem vamos falar porque nem existe. Naquela época, nós estávamos só considerados do mesmo valor que dessa mesa, então o negro era considerado um móvel, o código negro era o mesmo valor, nem de boi ou, sabe, de pecuária. Éramos considerados como móveis. Então, hoje, eunão acredito em igualdade, não quero igualdade, eu acho que precisamos resgatar nossas diferenças.

Allan Menengoti – Como?

Alexandra Loras – Por exemplo: se uma pessoa com afro ou com tranças vai para o Clube Pinheiros, em São Paulo, e quer entrar na piscina é obrigatório usar uma touca. Onde ela vai achar essa touca no mercado brasileiro para acolher o tamanho do cabelo? Tudo foi desenvolvido no padrão eurocêntrico. Se eu vou, por exemplo, fazer minha foto para o meu passaporte e vou deixar o meu cabelo afro. Se meu cabelo sair da foto essa foto vai ser recusada porque ele não foi feito no padrão eurocêntrico. Então eu sempre preciso me adaptar, precisamos nos adaptar a esses padrões. Até 3 anos atrás não achávamos maquiagem para nossa cor, não conseguimos achar shampoo para nosso cabelo, eram sempre coisas importadas, no Brasil onde tem 114 milhões de negros. É um absurdo como as empresas preferem ser racistas que capitalistas. Então, para mim, a solução é não só colocar cotas lá no final da universidade, é colocar cotas na St. Francis, na San Paul, na Avenues.

Allan Menengoti – Em importantes escolas privadas.

Alexandra Loras – É. Nessas escolas tem que colocar cotas. Tem que colocar cotas, urgentemente na produção da ficção da Globo, SBT, Band, assim, em todos os canais tem que ter 54% de negros na novela. Mais, em cargos de liderança como CEOs, governador, prefeito, juízas, advogadas, negros e negras, como reparação dessa dor histórica. O Brasil merece se olhar no espelho e fazer paz com ele mesmo e assumir essa mistura, essa complexidade e ter essa inteligência emocional que ele tem tão profundamente, com empatia e compaixão e dizer “ok, vamos reescrever nossa história e agora nosso objetivo é colocar na ficção o que gostaríamos de ver amanhã”. E não deixar o roteirista branco escrever esse roteiro. Temos que também deixar negros e mulheres entrar naquele mundo dos roteiristas para poder contar nossas próprias histórias.

Allan Menengoti – Hoje você se expõe com uma naturalidade grande, mas, como ex-consulesa, naquela época você não podia fazer isso. Por que aqui no Brasil você percebeu que queria e precisava falar? Foi fácil fazer essa transição?

Alexandra Loras – Eu tinha o poder de fazer antes de ser consulesa. Na verdade, quando peguei o título de consulesa era proibido para falar com a mídia brasileira, têm leis proibindo as esposas de embaixadores e Consul para se posicionar na mídia do país que recebe eles. Mas eu não queria ficar quieta como meu país ficou quieto frente a África do Sul e apartheid na África do Sul durante décadas desse apartheid. Eu  não quis ficar quieta em frente a apartheid brasileira. Eu quis me expor, usar meu título, usar meu espaço de poder para acordar as pessoas a enxergar esse elefante na sala. E com todo o carinho possível também, porque o Brasil me deu um palco, ele me deu oportunidade, ele me deu a melhor ferramenta de poder que é a escuta. Ele não ficou dono da verdade naquele momento, ele quis escutar e hoje se eu tenho tido a oportunidade de falar na frente de milhões de pessoas é porque o Brasil me ofereceu esse palco. Então eu tenho muita gratidão e também me coloco ao serviço do Brasil, porque eu me sinto eficaz, eu me sinto poderosa aqui para trazer a mudança que queria ver no mundo. Eu ajudei na contratação de 458  negros em multinacionais em 2018 e ajudei no aumento de 600% da presença na mulher negra na revista Vogue que é, para mim, a maior formadora de opinião do mundo. E ela influenciou a publicidade, ela influenciou as outras revistas femininas a se posicionarem melhor. Esse mês temos 64 páginas de mulheres negras na Vogue, então, com certeza, palestrando na Vogue, palestrando na Globo, palestrando na Conde Nast, eu sempre consegui colocar sementinhas de conscientização e cocriamos, como a Daniela Falcão, com a Paula Merlo,  com a Donata Meirelles, com muitas mulheres essa mudança. Então, quando aconteceu o episódio da Donata Meirelles foi um episódio infeliz, mas é como se precisássemos desses episódios para acordar. Então, foi chato para mim porque que eu tenho imenso carinho pela Donata e sei que ela não é inimiga, mas esse é o transtorno da elite brasileira de não conseguir enxergar o que tem de errado nessa foto.

Allan Menengoti –  Aproveitando sua experiência como palestrante, como empreendedora dentro das empresas, qual é o preconceito que você ainda vê que as mulheres estão sofrendo nesse momento? Por exemplo: a gente sabe que mulheres ocupam o mesmo cargo e ganham salários diferentes. Qual que é o preconceito que você tem se deparado, o que essas mulheres têm relatado para você?

Alexandra Loras – Temos melhorado muito nesses últimos anos sobre a questão de gênero. Tem muitas empresas no início que tinham esse discurso de que “ah, vamos ter que contratar ou ter mulheres burras na liderança, que são menos capazes, que são menos…”, Só que as pesquisas de neurociência demonstraram o contrário: quando as mulheres têm menos “turnover”, até mesmo sobre a mulher que pode engravidar traz mais dinheiro que um homem, que não engravida. Por que? Uma mulher tem menos “turnover” numa carreira numa empresa. Os homens têm mais oportunidade de sair sendo procurado por “headhunter” para sair e ir trabalhar noutras empresas. Então os homens têm mais oportunidades. As mulheres ficam com mais lealdade numa empresa. Elas ganham 70% do salário do homem, então numa carreira que ela possa se ausentar alguns meses para uma gravidez, no final da carreira, na verdade, uma mulher custou muito menos. As mulheres são menos propensas a ser corruptas. Isso, de fato, é neurociência. São pesquisas e dados, estatísticas publicadas. Então, tem, pelo Ministério do Trabalho, igual a mulher em cargos de liderança vai trabalhar 12 horas a mais por semana pela síndrome do impostor que ela tem, para justificar ainda mais a legitimidade dela naquele cargo. E as empresas que equilibraram diversidades de gênero aumentaram em 23% a rentabilidade delas. Então, de uma certa forma, o fato das mulheres entrarem na liderança, entrar na cocriatividade, na inovação dos produtos que, quando você só deixa homens brancos da PUC, Mackenzie e USP desenvolver produtos e campanhas para falar com o verdadeiro público brasileiro, eles não freqüentam tanto os negros, quanto os PCDs. Então eles não sabem dialogar com esse público. Quando você traz diversidade e mais mulheres e toda essa interseccionalidade, mulheres negras, PCDs, etc, você consegue cocriar melhor, inovar melhor, se adaptar melhor com uma sociedade mais justa, não só mais justa, mas você aumentar sua rentabilidade, porque você consegue dialogar melhor com aquelas pessoas, você não pode esperar alguém da elite saber dialogar com os 70% de analfabetos funcionais, você precisa contratar analfabetos funcionais para saber como dialogar com esse público.

Quando faço minhas palestras sempre falo que eu desenho um seis na frente de você, [mas] você enxerga um nove. Quem tem razão? Nós dois. Só que, deixa-me te pegar pela mão, com sua absoluta certeza que você está enxergando um nove, para eu te mostrar que também pode ser um seis. E esse é meu objetivo: ajudar as pessoas a entender que o racismo ele é sofisticado, ele é uma inteligência extremamente planejada há séculos. Não podemos negar que durante mais de 80% da história do Brasil houve a escravidão. 80% da história do Brasil. E que agora está tudo resolvido. Hoje, o carinho e a conexão do brasileiro no coração deve ajudar ele a acordar e se posicionar para ser anti-racista. Se tornar anti-racista é, primeiro, aprender a escutar a dor do outro, porque não podemos mais que somos isso tudo é “mimimi” é “vitimismo”. Claro, somos vítimas de um sistema extremamente opressor e dominante. Claro que “mimimi” que é “mãmãmã de choro, temos todas as razões para chorar horas olhando para nossas histórias, nossa ancestralidade que foi tratada daquele jeito. Então, já essa coisa do mimimi, de vitimização, precisamos parar com esses termos ou mudar o sentido daqueles termos e, hoje, perceber a sofisticação desse apartheid, dessa segregação cordial no Brasil que faz que não precisamos de plaquinhas escrevendo “entrada do branco”, “entrada do negro” na entrada do Shopping Iguatemi. O  negro sabe que não é pra ele entrar lá, o branco sabe que esse espaço é dele. Agora, por que no Brasil precisa ter nos elevadores plaquinhas dizendo que toda discriminação é proibida, etc? Por que precisa ter essas plaquinhas? Por que cada vez que eu vou visitar minhas amigas em prédios sempre eles me orientam para o elevador dos empregados? E eu não percebi no início. E eu chegava nas cozinhas das minhas amigas. E elas precisavam, depois, verbalizar para o guarda: “deixa a Alexandra, quando ela chegar, entrar pelo elevador social”.  Elas ficavam chocadas, mas ficavam com um sorriso, não comentando aquela micro agressão que elas perceberam. Outra coisa, fui na Fazenda Boa Vista, faz pouco tempo, e uma das mulheres mais poderosas do Brasil me viu com minhas tranças. Era a primeira vez que eu encontrava ela. Eu não conhecia ela, ela não soube lidar com minha diferença, ela pegou minhas tranças e fez voar elas “ah, que bacana, que bacana” e ficou tocando. Olha, o corpo da mulher negra foi estuprado por séculos, foi objetizado como uma coisa só para produzir “mulatos”, essas coisas do escravo, que estava chamando de “mulato” por depois do estupro o escravo ser mais claro, e essa conjunção do mulato, a mistura do cavalo e do burro – a palavra mulata vem da palavra mula – então é muito racista, é até vergonhoso porque compara nossa humanidade com a animalidade. Então é muito ruim chamar alguém que mulata, só que no Brasil é tipo “não, você não é tão negra assim, você é multada” é quase um elogio. Claro que ela não quis me ofender, ela não quis me humilhar na frente de todo mundo, mas ela esqueceu que nossos corpos foram objetizados durante séculos e que não dá para tocar assim o cabelo da mulher negra. Imagina eu chegar nela que é loira e eu [falar] “ah, que cabelo macio” e fazer ele voar? As pessoas iriam ficar chocadas tipo: “essa negra não tem os códigos, não tem o protocolo, é mal educada, é ignorante, é não sei o que, é analfabeta funcional, é louca”. Só que por essa mulher ser uma das mulheres mais poderosas do Brasil, branca, loira, ninguém reparou que isso foi um episódio de racismo.

Allan Menengoti – Agora, vamos falar do seu documentário que você produziu. O que você vai mostrar e o que a gente, digo, todos nós precisamos saber que a gente não saiba e o que você vai trazer desse documentário?

Alexandra Loras – Minha proposta nesse documentário é poder, com carinho, com diálogo, ajudar as pessoas a perceber um assunto como o racismo velado, como essa democracia racial, conseguir comprovar a existência de outro mundo que é a segregação e a apartheid cordial, que são conceitos que eu percebo no Brasil. Então, quero mostrar dando voz para ministras negras, deputadas federais negras, juízas negras, esse pessoal. Essas mulheres negras de poder, o quanto a jornada delas foi difícil e a chegada delas continua sendo ainda mais difícil, dentro daquele contexto monocromático branco elas sofrem racismo. Porque o que o brasileiro gosta de acreditar que a questão do negro é econômico-social. Mas claro, tudo é econômico social. Só que não é porque você tem um negro com dinheiro que não vai mais sofrer racismo. Eu acredito que você vai sofrer ainda mais racismo na elite que lá embaixo. Eu acho que lá embaixo tem mais negros, então menos agressões, talvez, para uma mulher negra. Não estou falando de um homem negro, porque hoje a realidade da juventude negra com certeza é devastador. 

Allan Menengoti –  O fim dessa sutileza que você fala é a própria violência dentro de casa. Como que você vê a violência contra a mulher? 

Alexandra Loras – Eu acho que a maioria das ONGs no Brasil focam sua energia embaixo da pirâmide, eu faço o contrário. Então, eu quero educar a elite, porque a chave do jogo está dentro da elite. Educando a elite a repercussão vai mudar a base. Quando estamos trabalhando com as vítimas de assédio sexual e de estupro, para mim não é a solução. Precisamos trabalhar com o estuprador. Eu quero ir trabalhar com o Donald Trump ou com o Bolsonaro, me interessa muito mais do que trabalhar com o Obama. Por que trabalhar com o Obama? Falar assim, do lado “olha como estou trabalhando com o Obama, que legal para o meu pedigree”. O que estou agregando para o Obama? Trabalhando com alguém que pensa diferente de mim, isso é inovador, isso traz a mudança que quero ver no mundo, porque eu preciso me aproximar do Bolsonaro, eu preciso conversar com ele, eu preciso seduzir ele sobre minha humanidade, sobre meus talentos e minha forma de agregar a ele, na forma de repensar o mundo sobre mulheres, sobre negros, sobre a questão LGBT, sobre, assim, tantas outras coisas.

Allan Menengoti –  Então, se a democracia é também a igualdade de raça, de gênero, quais são os desafios que você enxerga para uma democracia racial verdadeira no Brasil?

Alexandra Loras – Eu vou me levantar estimulada para mudar essa sociedade até ter 54% de negros e 52% de mulheres no Congresso, no Senado, no Governo, nos postos executivos das empresas e na mídia, na televisão. Até então, temos ainda muito para fazer. Mas, até então, nessa época que quero estimular para ela acontecer rapidamente, porque acredito que somos capazes para trazer essa mudança que queremos ver no mundo. Mas eu acho que estamos no caminho certo. Acredito muito no acordar do brasileiro, porque ele pensa com o coração, a partir do momento em que ele empatia e compaixão, ele consegue ter flexibilidade para essa mudança que queremos ver no mundo, então acredito que vamos conseguir.

Allan Menengoti – E qual a relevância que você vê num instituto como o nosso que pretende estudar a democracia, conversar sobre questões que às vezes as pessoas ainda não têm coragem de falar? Qual a relevância que você vê nesse projeto?

Alexandra Loras – A relevância é dar voz para as pessoas que realmente pensam muito longe daquele conceito de democracia. Quando estou te provocando e falando “olha, eu não conheço nenhuma democracia real”, porque é toda uma fofinha narrativa. Realmente, até ter 52% de mulheres numa democracia, não é democracia, não é. Então, qual outra mentira você quer debater? Então, eu acho que é também entender, aprender, questionar, dar voz para os provocadores, que também tem soluções, porque eu reclamo, mas eu também foco muito nas soluções. Eu gosto de dar alternativas. Então é isso. Me dá 54% de negros no governo, no Congresso, no Senado, depois podemos falar de democracia.