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Ricardo Vita

Ricardo Vita é um intelectual francês, observador e crítico da história pan-africana, colunista internacional e Headhunter.  É bacharel e Mestre em literatura e idiomas, além de especialista em negócios e negociações comerciais e internacionais pela Universidade La Sorbonne. Dada sua formação pessoal e seu amor pelas culturas, Vita é altamente dedicado à promoção da diversidade. Em 2010, co-fundou o instituto République & Diversité, um Think- and- Do Tank, que visa promover todas as diversidades existentes na França, colocando assim a República Francesa no centro da reflexão cultural.

Ricardo Vita: no mês da consciência negra, uma reflexão sobre o impacto da cultura e da presença do povo africano na construção do país.

“O Brasil parece não estar pronto para encarar a sua verdadeira história, ainda não sabe plenamente que a história do negro é a história do Brasil.”

No mês da Consciência Negra no Brasil, um dado apresentado pelo IBGE nos traz um novo cenário no sistema de ensino público brasileiro. Pela primeira vez na história, os negros são maioria nas universidades públicas brasileiras. São exatamente 50,03% dos estudantes do ensino superior. 

Fruto das políticas públicas, como o sistema de cotas, há motivos para celebrar este avanço. Por outro lado, há muito ainda a ser conquistado, como por exemplo, a necessidade de se transpor esse dado à representatividade no mercado de trabalho, em especial em cargos de gestão e liderança.

Para quem questiona sobre a necessidade de se celebrar o dia da consciência negra, digo que este dia deve sim estar no calendário. O mês de novembro é o período para relembrarmos sobre as lutas contra a discriminação, ao preconceito. É o momento de voltarmos os olhos com maior cuidado aos negros para ouvir suas vozes, suas histórias, para refletirmos sobre suas posições na sociedade, bem como sobre a importante contribuição dos negros na construção do Brasil. Enfim, tudo o que deveríamos fazer naturalmente todos os dias do ano e não se faz.

No decorrer do desenvolvimento do instituto I.AM Democracia tive a oportunidade e o grato privilégio de compartilhar informações e experiências com algumas personalidades, que além dos ensinamentos, me abriram ainda mais os olhos para a questão racial no Brasil.

Uma delas é o novo parceiro e colunista do instituto I.AM Democracia, o qual apresento nesta oportunidade. Ricardo Vita é um grande intelectual residente em Paris, na França. Mestre em literatura, tem se destacado como um observador crítico da história pan-africana, além de ser colunista internacional e Headhunter. Fundador do Instituto République & Diversité, na França, desenvolve ainda um importante trabalho relacionado à diversidade em grandes empresas na Europa. 

Ricardo Vita é o nosso convidado para repercutir a questão racial no mês da Consciência Negra no Brasil.  

Allan Menengoti – No dia 20 de novembro é celebrado no Brasil o Dia Nacional da Consciência Negra. Criado em 2003, foi oficialmente instituído pela lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011. Acredita-se que o líder Zumbi dos Palmares foi morto no dia 20 de novembro,   no  século XVII. Assim esta data foi escolhida. De início, duas perguntas sobressaem, uma conceitual e outra histórica: Qual é o sentido da palavra “consciência” neste contexto? E o que a figura do Zumbi dos Palmares e a rememoração da data de sua morte representam no Dia Nacional da Consciência Negra?

Ricardo Vita – O presidente da República Francesa, Jacques Chirac, decidiu fazer da data de 10 de maio o dia comemorativo da abolição da escravidão. Com essa data, ele desejou dar à França a oportunidade de honrar a memória dos escravos e comemorar a abolição da escravidão. O dia também serve para iniciar uma reflexão sobre toda a memória da escravidão, que durante muito tempo foi negligenciada, para reabilitá-la na história francesa. É também uma oportunidade de questionar como a memória da escravidão pode encontrar o seu devido lugar nos programas escolares. Havia, portanto, um desejo de desenvolver o conhecimento científico sobre essa tragédia. Assim, consciência é conhecimento, é a verdade ou a sua busca. É reparar, neste caso e no do Brasil, as identidades feridas para sair da falsa paz, a fim de criar uma paz verdadeira e sustentável, pela unidade e concórdia da Nação. Em 10 de maio de 2001, o Parlamento francês votou essa lei, que uma deputada negra, descendente de escravos, Christiane Taubira, que alguns anos depois seria Ministra da Justiça da República Francesa, defendeu com brio. É por esse motivo que a lei se chama Lei Taubira (n ° 2001-434). A lei reconhece o comércio transatlântico de escravos e a escravidão e permite lembrar o sofrimento infligido pela escravidão e a sua abolição. Portanto, o desejo foi de criar uma consciência vigilante.

Os escravos são frequentemente apresentados como seres passivos e totalmente submissos ao seu destino miserável. Mas Zumbi dos Palmares lembra que os escravos foram os primeiros actores da luta contra a escravidão. Portanto, ele incarnou Coragem e Resistência. Como Toussaint Louverture, o libertador do Haiti, Zumbi dos Palmares também representa, na história, a luta pela abolição da escravidão, um crime contra a humanidade, do qual milhões de negros, embutidos no comércio triangular, foram vítimas. Lutou pela emancipação dos escravos. Portanto, também representa a Liberdade e a Igualdade entre os seres humanos.

Allan Menengoti – Essa “consciência” também pode ser compreendida como a necessidade urgente, até no sentido de uma missão, de os negros reverem, corrigirem e escreverem, eles próprios, a sua história no Brasil, do processo de escravidão aos dias de hoje?

Ricardo Vita – No prefácio de Orphée noir, de Léopold Sédar Senghor, Jean-Paul Sartre escreveu o seguinte: «O que é que vocês esperavam, quando se tirasse a mordaça que fechava essas bocas negras? Que vos cantassem louvores? Essas cabeças que os nossos pais vergaram até no chão à força, vocês pensavam, quando se levantariam novamente, que veriam alguma adoração nos seus olhos? Agora temos homens negros de pé que nos observam e desejo que sintam como eu a emoção de serem vistos». Sartre reconhece aí o privilégio que o branco teve, durante três mil anos, como ele afirmou, de ver o mundo com os seus olhos sem ser visto por ninguém, de nomear as coisas e os seres como julgasse conveniente. Ele era a Verdade com V maiúscula. Sartre, portanto, pede que ele, o branco, esteja pronto para ser visto também, porque o negro agora está a começar a contar a sua história e a ver o mundo com os seus próprios olhos. Então, sim, esse fenômeno, embora recente, só vai se fortalecendo com o tempo, e a verdade será estabelecida no processo, é inexorável. 

Este trabalho, de consciência ou memória, foi sério e profundamente iniciado no espaço anglófono, especialmente com afro-americanos; o movimento Harlem Renaissance e outros autores que se seguiram como James Baldwin. E o movimento da Negritude seguiu esse ritmo na Francofonia, Discours sur le colonialisme, de Aimé Césaire, sem mencionar a obra salutar de Frantz Fanon, é uma ilustração perfeita. Mas, infelizmente, esse necessário trabalho ainda não tomou uma verdadeira forma na lusofonia, há urgência.

Allan Menengoti –  A palavra “consciência” também é uma palavra fundamental à democracia, porque é pelo processo de se fazer consciente que tudo se inicia, desde a mera descrição do que é ou está sendo a democracia num lugar até a educação e a ação estruturada por meio de um plano de manutenção deste bem. Diante disso, podemos dizer que a consciência negra também busca esses elementos que vão da mera descrição, passam pela educação e procuram fundar um plano de manutenção deste bem?

Ricardo Vita – Foi dito que consciência é conhecimento, a verdade ou a sua busca. Portanto, a consciência negra deve estar vigilante para restaurar a verdade sobre a sua história a fim de reparar o dano que sofreu. A educação escolar e social é uma maneira de atingir esse objectivo e a comemoração do Zumbi dos Palmares é uma necessidade. Porque, como James Baldwin escreveu, this world is white no longer, and it will never be white again (este mundo não é mais branco e nunca mais será branco), falando em termos de poder, aliás, o Brasil nunca teve uma maioria branca, em termos de porcentagem racial. Devemos, portanto, recorrer à diversidade, incentivá-la, é a única garantia de criatividade, riqueza e paz para todas as sociedades do mundo, hoje e amanhã. Penso que o Brasil também quer avançar para uma nação mais perfeita. Nação, a ideia de um grupo de indivíduos movidos por uma vontade própria de viver juntos. Para uma nação brasileira mais unida, mais harmoniosa, no respeito das suas diferenças e peculiaridades, a maioria do seu povo (os negros) deve ter o seu devido lugar. É isso que chamamos democracia, e a sua vitalidade e credibilidade dependem disso.

Allan Menengoti – O que não sabemos ou o que sabemos, mas não temos ciência de fato – sobre o prejuízo e até a impossibilidade do racismo em uma democracia plena?

Ricardo Vita – A democracia não existe com exclusão da maioria. E se a maioria excluída não estiver envolvida na análise do problema que a afecta na sua sociedade, para corrigi-lo ou combatê-lo, a democracia é nula. Sabemos que a democracia não é o melhor dos sistemas, mas é o menos pior dos regimes. Assim, ao permitir que a voz da maioria se expresse, a democracia pode existir plenamente. Isso permitirá desenvolver ferramentas para medir e combater o racismo e todas as outras formas de discriminação. É o que eu chamo consciência.

Allan Menengoti – Sabemos que é fundamental que as questões da democracia e do racismo passem pela educação familiar e escolar, chegando inclusive aos conteúdos universitários. Mas de que modo elas devem ser trabalhadas a fim e serem corretamente compreendidas?

Ricardo Vita – O Brasil parece não estar pronto para encarar a sua verdadeira história, ainda não sabe plenamente que a história do negro é a história do Brasil. Ela não é bonita, mas deve ser contada, honesta e verdadeiramente, para ser assumida e superada. Além do trabalho sério de associações e activistas anti-racistas, a vontade política é indispensável nesse campo. O Governo tem o dever de continuar essa luta por meio de políticas dedicadas e acções concretas contra o racismo (leis, educar as crianças na escola, dando-lhes os meios para ter o espírito crítico, o ensino superior e a pesquisa para aprimorar o conhecimento e combater os fenômenos racistas, treinar investigadores e magistrados especificamente para essa luta, mobilizar territórios, autoridades públicas, associações, esportes e mídia). Mas a urgência é, acima de tudo, fortalecer a visibilidade da diversidade em todas as áreas; na política, no área econômica, na mídia. É necessário tirar o negro dos domínios subalternos nos quais ele é confinado pelo racismo sistêmico e histórico.

Allan Menengoti – A democracia e a luta contra o racismo, bem como outras questões essenciais, sofrem hoje com a disseminação de  informações falsas, mas principalmente de histórias falsas que procuram sem cientificidade nenhuma alcançar cada vez mais pessoas despreparadas. Como enfrentar de forma madura a era das fake news a fim de se garantir a real história do negro no mundo?

Ricardo Vita – A resposta está na pergunta, em « despreparadas » e « história do negro no mundo ». Portanto, para evitar as fakes news, precisamos reforçar a educação em todas as suas formas, associando o negro à reflexão e à difusão da sua história. Um cidadão educado e preparado convenientemente sabe distinguir o trigo e do joio.

Allan Menengoti – O horror da escravidão transatlântica marca historicamente a forte relação entre Brasil e África. Depois de mais de 500 anos, qual é a relação entre os afro-brasileiros e a África e aos demais negros no mundo?

Ricardo Vita – A União Africana percebeu isso e teve a ideia de criar em 2003 a 6° Região que dedicou à diáspora. Com a diáspora, a UA é composta de 6 regiões: África do Norte, África Ocidental, África Central, África Oriental, África Austral e a Diáspora pan-africana. Se é crucial hoje construir a África com a sua diáspora, é porque ela sempre lutou do seu lado. Os africanos da diáspora empenharam não apenas recursos morais e mentais colossais para se libertar da servidão a que foram submetidos, mas também, tragicamente, para retornar a essa fonte africana para ajudar a libertá-la da opressão colonial. Do sucesso da primeira revolução de escravos que deu origem à primeira República negra, Haiti, em 1804, as primeiras conferências pan-africanistas do início do século XX, às lutas pela independência na África, nas Caraíbas e pelos direitos civis nos Estados Unidos, a diáspora africana no Ocidente continua a nutrir o ideal de unidade dos afrodescendentes. Apesar das diferentes correntes, a relevância contemporânea do ideal pan-africanista continua a basear-se na unidade e na interconexão de destinos ligados por uma história comum de precariedade (comércio de escravos, escravidão, colonialismo e racismo) e um objectivo comum (a emancipação).

Demograficamente, a diáspora representa cerca de 350 milhões de indivíduos, o que é, se fosse o caso, o terceiro maior « país » do mundo, depois da China e da Índia. O conjunto desta população é composto de descendentes do crime da escravidão europeia e da migração económica que levou africanos para a Europa no século XX, especialmente depois de 1945. Mas, por enquanto, a diáspora é apenas uma força esparsa e o objectivo é conectá-la com os seus membros e ligar depois os seus « cabos » com a África-mãe. A importância política, económica e cultural da diáspora contribui no desenvolvimento do Continente. A diáspora está na cena mundial, apresentando um discurso pouco ortodoxo sobre a África e defendendo posições que rompem com o que é geralmente ouvido tanto nos antigos países colonialistas como na própria África. A experiência da diáspora, no posicionamento dos seus destinos na história, na sua situação minoritária no Ocidente e nas formas históricas de adversidade que continua a enfrentar, fez dela uma intérprete insubstituível para a reabilitação da África. Neste caso, o destino dos negros no mundo está intimamente ligado ao futuro do Continente. O debate sobre a complexidade da odisseia do Negro permanece nos mundos negros, como também existiu, ou existe ainda, na diáspora dos Judeus. Ainda como os Judeus – em relação à Israel – , é da África, a mãe da sua cultura e da civilização que desenvolveu lá longe, que a diáspora poderá receber a sua verdadeira regeneração. É por esse motivo que a 6ª região está a ser estruturada e o Brasil deverá ocupar um lugar de destaque por ser o país onde vive a maior diáspora africana, ou, simbolicamente, o maior país africano.

Allan Menengoti – Eminentes sociólogos e historiadores que trataram da formação do povo brasileiro ressaltavam que a história do negro no Brasil não começa aqui, mas na África. Ressaltaram que o afro-brasileiro não é descendente de escravos, mas de africanos escravizados. E que eles têm uma história que muito contribuiu para a formação do povo brasileiro. Em que medida essa importante contribuição histórica chega aos afro-brasileiros e, enfim, a todos os brasileiros?

Ricardo Vita – Culturalmente, a diáspora africana se impôs na música de todo o século XX, na dança, na literatura, nas artes visuais, no cinema, etc, e não será necessário mencionar os seus sucessos no desporto. Os negros escravizados saíram das suas terras com conhecimento, línguas, religiões, levaram uma civilização africana. Foi graças a isso que eles sobreviveram ao inferno da escravidão. Por exemplo, conheciam as artes da guerra para se defender e se libertar da opressão e, no caso do Brasil, foi com o seu trabalho e sangue que esse país foi construído. Hoje, porém, temos a impressão de que os descendentes dos sacrificados não desfrutam dos ganhos que o Brasil obteve graças aos seus anciãos e antepassados.

Allan Menengoti – Se a democracia é também a igualdade de raça, de gênero, quais os desafios que você enxerga para a construção de uma democracia racial verdadeira?

Ricardo Vita – Não vou falar sobre uma verdadeira democracia racial, não sei o que é. Eu acredito na verdadeira democracia simplesmente, aquela que diz a vontade do povo, a maioria se você quiser. Para isso, seria necessário que cada vida conte, que cada ser tenha o mesmo peso, a mesma importância. E a única maneira de conseguir isso é envolver todos no progresso colectivo.